quarta-feira, 24 de março de 2010

Marcos Dionísiso: “A pobreza não é causa da violência”


 

Em entrevista concedida ao jornal Diário de Natal, o coordenador de Direitos Humanos da Secretaria Estadual de Justiça e Cidadania (Sejuc), Marcos Dionísio, apresenta o número de assassinatos ocorridos nos últimos cinco anos na Grande Natal, e aponta as causas para os dados trágicos.

Marcos Dionísio

Marcos Dionísio: dados mostram o trágico da violência

 

 
Para Marcos, não é a pobreza que causa a violência, mas os chamados espaços segregados, áreas urbanas em que a infra-estrutura de equipamentos e serviços (saneamento básico, sistema viário, energia elétrica e iluminação pública, transporte, lazer, equipamentos culturais, segurança pública e acesso à justiça) é precária ou insuficiente, e há baixa oferta de postos de trabalho. Outros fatores para o crescimento do crime são o consumismo, a impessoalidade das relações nas grandes cidades e a desestruturação familiar.

Os números são preocupantes: 3.343 pessoas, entre jovens e adultos foram assassinadas na Região Metropolitana de Natal nos últimos cinco anos. Os dados, fechados esta semana, são da Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias do Rio Grande do Norte (Codem). De acordo com a estatística, Natal é a cidade onde ocorreu o maior número de homicídios. Foram 215 no ano de 2004. Em 2009 o número subiu para 391.

Em segundo lugar está o município de Parnamirim, que em cinco anos duplicou o número de assassinatos entre jovens e adultos. No ano de 2004, Parnamirim registrou 25 homicídios. Em 2009, esse número duplicou para 52.

A maior preocupação está com o município de São Gonçalo do Amarante, que triplicou o número de assassinatos em apenas cinco anos. Em 2004 foram re-gistrados 21 assassinatos e em 2009 o número subiu para 61 assassinatos.

Extremoz também está entre um dos municípios da Grande Natal que teve um alto crescimento no número de assassinatos nos últimos cinco anos. Foram 5 em 2004 e 38 em 2009. O município da Região Metropolitana que re-gistrou o menor número de homicídios foi Monte Alegre, com apenas um assassinato em 2004 e 8 em 2009.

As demais cidades da Região Metropolitana de Natal, como Macaíba, Nísia Floresta, São José do Mipibu e Ceará Mirim o número de homicídios registrados nos cinco anos também chamam a atenção. Em Macaíba ocorreram 21 homicídios em 2004 e 34 em 2009. Em Nísia Floresta foram 3 assassinatos em 2004 e 6 em 2009. Em São José do Mipibu ocorreram 9 homicidios em 2004 e 15 em 2009 e em Ceará Mirim foram 5 assassinatos em 2004 e 20 em 2009.

Para o titular da Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias do Rio Grande do Norte (Codem), Marcos Dionisio Medeiros Caldas, a violência da Região Metropolitana de Natal ainda não poder ser comparada à verificada nas regiões metropolitanas de Recife, Maceió, Salvador, Fortaleza e Vitória. Mas é uma violência preocupante porque vem crescendo ano a ano e pode chegar rapidamente a alcançar os números dessas outras regiões metropolitanas.

De acordo com Marcos Dionísio, as causas da violência são várias. "O que temos identificado nas áreas onde estão concentradas os homicídios são áreas caracterizadas pela ausência de serviços públicos organizados e com capacidade de atender as demandas locais, seja no campo da Segurança Pública, da Educação, da Habitação, da Assistência Social, da Saúde e do Esporte e Lazer", explica Marcos Dionisio.

Para ele, a ausência de um bom padrão de vida e de qualidade nestas comunidades, contribuem para o desenvolvimento da co-mercialização e consumo de drogas, que vão seduzindo jovens desesperançosos da vida e que encontram no agrupamento para fins ilícitos o bem estar, ainda que ilusório, negado pela família e pela comunidade.

Marcos Dionisio disse ainda que "estes jovens são as maiores vítimas da violência e perdem a vida na plenitude da sua força física quando poderiam estar estudando, trabalhando e ajudando seus familiares e seu município".

O coordenador do Codem é de opinião que além do papel da educação escolar, que é de fundamental importência na vida de um jovem, nada substitui a educação familiar. "É preciso que cada pai saiba onde, com quem e o que está fazendo seu filho. Nunca numa perspectiva policiada, mas num exercício de diálogo que mostre o caminho que o jovem deve seguir. A falta desse diálogo leva a que centenas de pais e mães de famílias se encontrem de repente com trajédias".

Grupos de extermínio da própria polícia age na RMN

Como se não bastasse a violência urbana na Região Metropolitana de Natal, segundo Marcos Dionisio, ainda existe em funcionamento grupos de extermínios formados por maus policiais que assassinam e promovem extorsão de traficantes e de usuários de drogas.

Questionado sobre o que faz jovens de classe média, que sempre estudaram em colégios particulares a entrarem para o mundo do crime, Marcos Dionísio foi objetivo: "jovens de classe média que enveredam pelo caminho das drogas, e que são muitos, mostra a necessidade de se olhar para o fenômeno da violência sem preconceito. A trajédia do crack, que começou na pe-riferia, está contaminando famílias de classe média. Não é só a pobreza que leva à violência. As cidades mais miseráveis do mundo, como Cairo (Egito) e Nova Delin (India), não são cidades violentas", explica.

Para Marcos Dionísio o que gera a violência é a cultura consumista que faz com que pessoas se mobilizem para conseguir os seus objetivos sem respeitar a lei e sem observar nenhum princípio físico, religioso, ou de cuidado e respeito a pessoa humana.

"Eu acredito que a Região Metropolitana de Natal tem que se mobilizar para procurar soluções para a onda de violência que começa a nos atingir fortemente. É preciso haver um planejamento integrado das políticas públicas preventivas e uma qualificação da repressão", disse o coordenador do Codem.

Marcos Dionisio disse ainda que "entraremos agora numa fase muito propícia para que consigamos rever-ter essa situação. Brevemente começaremos a receber melhorias de recursos para preparar Natal para a Copa do Mundo de 2014. Este eveno que atrairá turistas que precisam ser bem cuidados e bem tratados".

Segundo Marcos Dionísio, no campo da segurança não será mais admissível que maus policiais pagos com o dinheiro dos impostos da população levem sofrimento e dor as comunidades. Quando na verdade, esses policiais devem estar zelando pela tranquilidade de todos.


Zona Norte de Natal registra o maior número de assassinatos no período


Dados da Coordenadoria de Direitos Humanos e Defesa das Minorias dão conta que em Natal, a Região Norte registrou o maior número de homicídios entre os anos de 2004 e 2009.

Foram 705 assassinatos em apenas cinco anos. Os bairros mais atingidos são Igapó, Lagoa Azul, Nossa Senhora da Apresentação, Pajuçara, Potengi, Redinha e Salinas.

Só no bairro de Nossa Senhora da Apresentação foram 236 homicídios entre os anos de 2004 a 2009. A segunda região que registrou o maior número de homícios durante os seis anos foi a Região Oeste, com 153 assassinatos só no ano passado. No total foram 607 homicidios durante cinco anos.

O bairro mais afetado da Região Oeste foi Felipe camarão com 184 homicidios durante o período de 2004 a 2009. Em terceiro lugar vem a Região Leste de Natal. No período de 2004 a 2009 foram registrados 250 assassinatos. O bairro com o maior número de mortes foi Mâe Luíza, com 77 crimes de homicídio.

A área que registrou o menor número de homicídios em toda Natal foi a Região Sul, com apenas 395 homicídios. Dos quais, Ponta Negra registrou o maior número de mortes. Foram 53 em cinco anos.


Psicóloga diz que o inicio das drogas significa fim das atividades escolares


Para a psicóloga Daniela Rodrigues, quando um jovem inicia no meio das drogas e começa a participar de crimes hediondos, é porque deixou as atividades escolares de lado. "É justamente na fase dos 15 ou 16 anos que eles deixam de estudar e passam a desenvolver outras atividades como se drogar, por exemplo", explica a psicóloga.

Para a especialista, as pesquisas vêm mostrando que os jovens da periferia são as principais vítimas das drogas. Isso acontece porque na maioria deles falta perspectiva de vida, faltam oportunidades.

"As políticas públicas e sociais tem seu papel na sociedade, e isso falta para eles. Muitos desses jovens não tem estrutura psicológica. Residem em ambientes desestruturados, onde a mãe passa a ser pai e mãe ao mesmo tempo", disse.

Existe também a questão da vulnerabilidade. Os aspectos emocionais, familiares e sociais. Em muitos casos, segundo a psicóloga, a própria escola propicia esses acessos.

"Nós vimos casos de jovens que foram assassinados na própria escola", disse Daniela, acrescentando que a família tem o papel de formadora da pessoa humana. "Temos que ver a formação da família, os setores multifatoriais. Enfim, são muitas causas, muitos fatores. Os jovens não são bem orientados", explica.

"Nós também vemos jovens que nunca tiveram experiência com drogas e são assassinadas na periferia. Isso acontece porque o jovem da periferia é mais visado. O fato de ser um jovem de pe-riferia já dá imagem que tem envolvimento com drogas", acrescenta.


Jovens são as principais vítimas dos homicídios


As estatísticas das mortes em Natal revelam que os jovens são as principais vítimas de homicídios e execuções da capital. Só no ano passado, foram 169 assassinatos de pessoas com idade entre 21 e 29 anos.

Se a faixa etária for diminuída para os 14 anos, o número de mortes sobe para 259. Os números são da Coordenadoria de Direitos Humanos e revelam que cada vez mais os jovens estão à mercê da criminalidade, principalmente, do tráfico de drogas.


Mais de 85% das mortes ficam sem solução na Grande Natal


Segundo dados do Instituto Técnico Científico de Polícia do RN (Itep), houve um aumento de 21% dos homicídios ocorridos na Região Metropolitana em 2009 em relação ao ano anterior, enquanto que apenas uma média de 15% dos inquéritos de assassinatos chegaram à Justiça com a autoria definida no mesmo período.

Os dados mostram que houve um aumento significativo no número de homicídios, entre 2008 e 2009, em algumas cidades da metrópole potiguar. Marcos Dionísio afirma que é preciso mais policiais para o RN.
 


Jornal Diário de Natal

 

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