domingo, 12 de setembro de 2010

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Astro de 'Nosso lar' faz sucesso em peças de temática espírita
Rodrigo Fonseca


O ator Renato Prieto, protagonista de 'Nosso lar' / Mônica Imbuzeiro


RIO - É difícil pensar em alguém melhor do que um ator visto por 5,5 milhões de pagantes em 12 peças de temática espírita desde 1982 para protagonizar o longa-metragem "Nosso lar", adaptação do best-seller homônimo, psicografado por Chico Xavier, com estreia agendada para 3 de setembro. Esse ator se chama Renato Prieto, um capixaba cinquentão que, há 28 anos ininterruptos, encontra plateias abarrotadas de gente (inclusive leigos e céticos nos assuntos do além) ao subir ao palco.

Neste fim de semana, Prieto chegará ao Teatro América, na Tijuca, onde estrela a peça "A morte é uma piada", às 19h, preparado para encontrar as 276 poltronas do espaço lotadas. Tem sido assim desde 1982, quando ele contracenou com Lúcio Mauro e Felipe Carone em "Além da vida", um fenômeno teatral com quase dois milhões de ingressos vendidos. Em seguida veio "E a vida continua", com 800 mil espectadores. Aos poucos, de espetáculo em espetáculo, Prieto passou a ser visto como o popstar da ala sobrenatural das artes cênicas no Brasil. Não é à toa a sua escalação para um candidato a blockbuster apontado como o filme mais caro do cinema nacional desde a Retomada. Seu orçamento: US$ 10 milhões, o equivalente a R$ 17,5 milhões. E sem um real de dinheiro público. Antes dele, "Lula, o filho do Brasil", orçado em cerca de R$ 16 milhões, era considerado o campeão de custo no país.

Assista ao trailer de 'Nosso lar':

- O cinema é uma frente nova - diz Prieto, escalado pelo cineasta Wagner de Assis para interpretar o médico André Luiz, espírito que teria narrado a trama de "Nosso lar" a Chico Xavier. - Porém, mesmo sem fazer novela, sou parado na rua todo dia por pessoas que me conhecem do teatro. E não são só de salas da Gávea ou do Centro. Há mais de 25 anos estou acostumado a me apresentar para pessoas que não têm acesso aos palcos. Faço peça em lona cultural, em escola pública, onde for. Mesmo se o lugar não tiver estrutura, eu levo equipamento meu para lá. Foi garimpando que criei credibilidade. E é essa credibilidade que me permite viver de teatro.

Diretor de "A cartomante" (2004), Wagner de Assis contou com um time de peso em "Nosso lar", a começar pelo compositor americano Philip Glass. Indicado ao Oscar por "Kundun" (1997), "As horas" (2002) e "Notas sobre um escândalo" (2006), Glass compôs a trilha sonora. A fotografia é do suíço Ueli Steiger ("O dia depois de amanhã"). Os efeitos especiais usados para delinear o mundo dos espíritos para onde André Luiz vai após morrer consumiram cerca de cem técnicos da produtora canadense Intelligent Creatures, que fez "Watchmen" (2009) e "A fonte da vida" (2006). Mas, para o papel central de um elenco que reúne Othon Bastos, Chica Xavier, Paulo Goulart e Werner Schünemann, Wagner preferiu um estreante. Ou quase, já que Prieto, nos anos 80, fez pontas em "Bar Esperança" (1982), filmes dos Trapalhões e curtas.

- Como essa história, que vem de um best-seller, é muito conhecida, eu precisava de um rosto novo para contá-la. Mas tinha que ser um rosto com experiência no tema. É claro que, para certa fatia do público, a plateia espírita, Renato é um nome forte - diz o diretor, cujo filme estreia com a responsabilidade de manter em alta a bilheteria de um filão aberto por "Bezerra de Menezes - O diário de um espírito", visto por meio milhão de pessoas em 2008, e por "Chico Xavier", recordista nacional do ano, com 3,4 milhões de pagantes.

Formado na década de 70 pelo Conservatório Nacional de Teatro (atual UniRio), Prieto participou de um workshop ministrado no Rio pelo polonês Jerzy Grotowski (1933-1999), cuja teoria do "teatro pobre" (ou teatro ritual) põe o trabalho psicofísico dos atores acima de adornos de vestuário ou cenografia. Também no Rio, ingressou numa oficina teatral aplicada pelo ator e cineasta americano Robert Lewis (1909-1997), que lecionou para Marlon Brando e Montgomery Clift no The Actors Studio. A disciplina e a aptidão para o improviso desenvolvidas nas aulas de Grotowski e Lewis treinaram Prieto para encarar os desafios de "Nosso lar", como perder 18 quilos em 45 dias ou encarar quase sete horas de maquiagem para as cenas do umbral, dimensão em que espíritos sem evolução purgam seu erros.

- Vou ao cinema duas, três vezes por semana - diz Prieto. - Qualquer coisa do Brian DePalma, eu assisto. Vejo tudo do Ralph Fiennes. No Brasil, dos filmes recentes, destaco "Estômago" e "Cinema, aspirinas e urubus". Se eu tivesse que dizer alguma coisa sobre "Nosso lar" para pessoas sem interesse pela questão espírita, diria: "Se gosta de cinema, veja o filme sem se preocupar com o tema. Veja, e depois a gente discute." O preconceito com a temática é forte. No teatro, mesmo com o público que eu tenho, não consigo captar recursos. Mas o que investimos volta com a venda de ingressos. Sempre - conta o ator, espírita assumido, cujos espetáculos, oriundos da literatura religiosa, são adaptados e encenados por Cyrano Rosalém.

- O Renato tem um apego ao teatro que o torna especial - diz o ator Ary Fontoura, que o conheceu no início da carreira. - Logo que chegou ao Rio, ele fez muito teatro infantil antes de enveredar pelas peças místicas. Desde o início tinha uma vontade férrea de galgar posições criativas no teatro. Perseverança nunca lhe faltou. Espero que trilhe um caminho no cinema para alimentar sua tenacidade.

A devoção de Prieto ao palco atraiu fãs:

Cena do filme 'Nosso lar' / Divulgação

- Foi o próprio Chico Xavier quem pediu a Augusto Cesar Vanucci e a mim que iniciássemos o teatro espírita brasileiro. Chico psicografava textos e enviava pra gente - lembra o ator Lúcio Mauro. - Depois que Vanucci morreu (em 1992) e Felipe Carone, nosso colega, adoeceu, Renato, o mais novo entre nós, pediu para dar sequência ao projeto. Ele teve talento para reunir atores, levantar produções e sobreviver de peças espíritas.

- Meu colega no Conservatório Nacional de Teatro, o Renato é ousado ao aplicar ferramentas dramáticas a um trabalho de conscientização - diz Ricardo Schnezter, dublador de Al Pacino há 20 anos. - Com carisma, aborda a doutrina espírita de forma racional.

Há quem considere o trabalho de Prieto uma catequese kardecista. Mas ele discorda:

- Desde menino, por fenômenos que vivi, tenho interesse por assuntos espirituais. Mas, na arte, o que me move é o desafio de tocar num assunto polêmico. Comecei com Tennessee Williams, os clássicos, Nelson Rodrigues, mas persisto numa trajetória por uma arte que oferece respostas. O trabalho em "Nosso lar" não é de incorporação. É composição de ator. Um ator que vê no mundo espírita um meio de falar de redenção. E de ser feliz.

 


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Enviado por Marluce Faustino/RJ


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