quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Uma pena dourada - Mensagem psicografada - FEIS



Uma pena dourada

Nesse mundo de meu Deus há aqueles que aqui puseram os pés encomendados ao sofrimento.

Suas vidas são o retrato legítimo do pesar, verdadeiro roteiro de dramas de consecutiva consternação e dor. Seus corpos vergados ao peso do sofrer, dão testemunhos das duríssimas provas as quais vieram dar cabo.

Lembro-me de uma dessas personagens, protagonista de uma vida fadada as maiores desventuras. Conheci-a numa área pobre da cidade. Ao vê-la pela primeira vez impressionou-me a sua figura, reproduzindo em mim enorme estranheza.

Suas feições era a tradução do desânimo. Os olhos mais tristes, emoldurados por bolsões negros, demonstravam as muitas horas que o choro e a tristeza foram os senhores da sua vida. A pele enrugada, encarquilhada, reproduzindo a aridez da sua vida deprimente. O rosto taciturno, encovado, com aquele olhar perdido dos sofredores, humilhados pelos muitos desgostos que a vida lhe tinha reservado.

Calada, foi com muito sacrifício que obtive dela algumas poucas palavras. Era aquele tipo de pessoa que quando fala se diminui totalmente, fala olhando para baixo com pobreza, sem coragem para encarar aqueles que lhe dirigem a palavra.

Ao primeiro olhar àquela senhora mirrada pela dor era uma criatura até repulsiva, mas devo dizer que conhecendo-a, ela inspirava um sentimento forte de compaixão e foi isso o que me fez mais próxima dela.

Seu nome era Maria, assim como o meu e de tantas outras mulheres.

Nosso diálogo era quase unilateral, pois somente falava eu, tendo-a curvada e muda ao meu lado, ouvindo-me cabisbaixa.

Demorei certo tempo até que aquela alma se sentisse a vontade do meu lado e abrisse para mim seu coração sofrido. Nas minhas andanças aos rincões da pobreza, se aprendi algo foi que, por trás de todo rosto macilento, amortecido por uma face sumida e olhos encovados, deve de haver uma narrativa triste na origem da dor. E o drama daquela mulher muito me interessava, pois quem realmente deseja ajudar, melhor pode fazê-lo conhecendo o princípio de tanta tristeza.

Fui assim, ganhando a sua confiança, expandindo as nossas conversas de poucas palavras, mas cheia de olhares que diziam tudo e regressavam a um passado dorido, de difícil permeio para Maria.

E assim me levei, preocupada, investindo pacientemente ao lado de Maria, tentando trazer-lhe alguma réstia de força naquela fraqueza que lhe dominava a alma.

Um dia, debaixo da sombra da mesma amendoeira que sempre nos recebia refrescando as nossas tardes quentes, quando tudo colaborou para um colóquio mais intimista entre nós, tomada de coragem, resolvi abordar Maria sobre seu passado, sabendo que certamente ascenderia feridas ainda abertas, que se recusavam a sanar. Na intenção de auxiliar apenas, perguntei-lhe bem assim:

- Minha amiga, todo esse tempo tenho lhe falado de minha vida, meus encontros e desencontros, mas tu, sobre ti, nada me revela. Contudo minha querida, te sinto de bem perto a tristeza amarga, pois ela está em tudo, ao redor de ti, na tua face, nos teus gestos e no próprio corpo abatido. Sem me atrever meu amor a penetrar-lhe a intimidade, não gostarias de dividir comigo as tuas dores? Pois os mais sábios nos dizem Maria, que quando dividimos o nosso sofrer com outro alguém que nos quer bem, menor ele fica.

Surpreendeu-me então o silêncio de Maria, para logo depois desabar em sentidas lágrimas.

Abracei-a de encontro ao meu peito, como tendo enlaçado nos meus braços um graveto, tamanha era a fragilidade daquela criatura e implorei que me perdoasse a tentativa insensível de penetrar na sua dor.

Olhou-me com seus olhos tristes e fundos, ainda banhados pelas lágrimas, apertou-me as mãos com sua débil força e se retirou, sem nada mais pronunciar.

Oh Deus! Será que cometi o erro da curiosidade, mesmo tendo a intenção verdadeira no coração? Preocupei-me.

À noitinha me entreguei em oração, rogando Aquele que tudo sabe e vê, que se possível fosse, confortasse a minha irmã, diminuísse o peso da dor de Maria.

Continuei indo a mesma praça onde periodicamente eu fazia as minhas leituras e encontrava Maria para conversarmos, mas ela não aparecia. Somente depois de preocupantes quatro dias foi que a vi novamente, veio ao meu encontro e me abraçou me dando de surpresa um beijo melancólico na face.

Sentamos ainda abraçadas e Maria resolveu, então, abrir em palavras, tento verdadeiramente impossível para dizer o que é indizível, toda a dor que carregava no peito.

Narrou-me assim sua triste historia desde a infância na favela, quando ainda menina era abusada pelo padrasto, e a mãe, mesmo sabendo, nada fazia ou dizia. Entre essa apavorante realidade que durou anos e a vida deficiente daquela comunidade, conheceu o jovem Pedro e se apaixonou por ele, que chegando a saber o que ocorria com Maria, espancou o nefando padrasto retirando-a de casa.

Pedro tornara-se então o derradeiro amor, na imagem do herói destemido que aparecia para salvar a menina ingênua e pura, maltratada pela ignorância da vida. E assim sendo, entregou-se completamente a Pedro, que era o único dono do seu coração.

Aos 16 anos tornou-se mãe de uma menininha batiza de Juliana, nome da mãe falecida de Pedro. Um ano depois viria o segundo filho e alguns anos depois, um terceiro, jóias que roubaram todos os segredos da sua juventude.

Pedro, como não é de se estranhar no comportamento machista dos homens, deixava-a em casa cuidando dos filhos e ao regressar do trabalho, procurava a bebida e o mulherio.

Pressionado pelas responsabilidades de pai e do sustento da família, deu para vadiar mais e mais, egoísta, logo decidiu se evadir para "ser livre", segundo ele mesmo dizia. Sumiu assim no mundo, fugindo das suas obrigações e a deixando com 3 filhos pequenos, sem trabalho e sem qualquer perspectiva de vida. Dois meninos e uma garotinha, que dividiam com a mãe a pobreza de ser.

A partir de então conheceu todo tipo de privações. Foram muitos os dias de fome, alguns somente resolvidos pela bondade dos vizinhos, também pobres. Muitas vezes a comida era tão ínfima que ela dava para os filhos e passava com fome, às vezes desmaiando pela falta de alento.

Mas o amor entre eles era muito grande, naquele lar faltava de tudo, menos o amor.

Os filhos raquíticos, sofriam de inanição. O menino do meio adoeceu. Por falta de tratamento adequado e remédios veio a óbito, cortando ainda mais o coração de Maria já em pedaços.

Sentia que a vida se insubordinava contra ela. Era com a perda do filho, menos mulher ainda. Seu coração não mais batia, era espancado pela realidade que lhe cercava.

A vida assim continuava, dura como sempre. Os anos passaram e a miséria só aumentava. Via-se abandonada, doente, sem forças. Só quando Juliana completava 8 anos e já podia olhar pelo irmão menor, sua jóia preciosa, Maria partiu em busca de emprego.

Todos esses anos vivendo do nada. AHhh! Só os miseráveis sabem como é viver assim, sem perspectiva alguma sobre o dia de amanhã, a não ser, a certeza das mesmas e novas dificuldades. Só os bem pobres sabem o que é viver assim!

Mas ela ainda pensava, "pelo menos tenho esse barraco de dois cômodos, deixado por Pedro". Era um lar, um lar sem móvel, com quase nenhum utensílio, onde as poucas refeições eram aquecidas na lata e no álcool, pois fogão não havia, mas era seu lar e ela intimamente era agradecida a Pedro por tê-la deixado ficar ali.

Agora, pela caridade de uma mulher da vizinhança, abria-se uma nova oportunidade na vida de Maria. Encontrara um emprego de lavadeira em casa de família. O salário pouco, mais uma grande esperança para quem nada tinha.

Ao divulgar alegre a notícia aos filhos, o pequeno de 5 anos agarrou-se a sua perna desesperado. – Mamãe não me deixe mamãe! – Chorava assustado.

Maria de tudo fez para explicar ao pequeno a necessidade do trabalho. Ele ficaria com a irmã até mainha voltar. Logo logo eles poderiam comer, pois Maria iria às compras pela primeira vez com o tão aguardado salário. Mas o pequeno não entendia nada disso, para ele só lhe interessava ter a mãe querida por perto.

Tanto se lastimou que Maria foi ao seu primeiro dia de trabalho com o pequeno Marcio Daniel, nome escolhido pelo pai, agarrado a sua saia.

A patroa mostrando toda a insensibilidade daqueles que não reconhecem as agruras da pobreza e falta de meios, deu-lhe logo um ultimato, não aceitaria crianças no local e os filhos deveriam permanecer em casa ou nada feito.

Maria se desculpando dentro de toda a sua submissão e necessidade daquele salário, pediu desculpas a patroa e prometeu que o pequeno ficaria em casa.

Depois deu trabalho para convencer o pequeno Marcio a ficar em casa com a irmã, isso não foi nada fácil para ela. Maria teve que imaginar algo. Foi até a lojinha do seu Julio, comprar fiado no seu futuro salário um periquitinho para entreter a criança, que agora estava fascinado com o presente da mãe, boquiaberto enquanto seu Julio cortava as asas do passarinho para que ele não fugisse e pudesse estar no dedo da criança.

Tinha funcionado, no outro dia Maria partia ao emprego enquanto Juliana ficava nas recomendações da mãe, responsável por cuidar da casa e do irmãozinho.

Distraído com o novo amiguinho, Marcio ficou entretido por horas, até que pela tarde sentiu falta da mãe e começou a chorar sem parar.

A irmã de tudo fez para entretê-lo, mas sua desolação era maior. De quando em quando parava de chorar e prestava atenção ao periquitinho se mexendo na gaiola, mas logo reiniciava com mais força a choradeira. Foi desse modo até que Juliana colocou o passarinho no seu dedinho.

Ao ver a mãe enfim chegar a casa, Marcio Daniel ficou todo o tempo grudado a ela, demonstrando o seu grande apego ao colo materno.

Novo dia. O pequeno agarrado à mãe já não queria saber do passarinho, temeroso de que Maria o abandonasse mais uma vez.

Maria e Juliana fizeram de tudo para distrair Marcio, que com a voz embargada pelo choro, implorava a mãe que não o deixasse.

Maria explicava que ia voltar logo, que estava fazendo aquilo por eles - não vá mamãe, não vá! - era só o que gritava o pequeno Márcio.

Tanto foi o tempo que Maria levou para contornar a situação que chegou atrasada no emprego, sendo novamente repreendida pela patroa.

Mas isso não importaria, já que se desenhava na vida dessa mulher sofrida, novo movimento contínuo da dor. Um pesar dos mais pungentes aguardava Maria, no verdadeiro desfecho do destino dos desgraçados.

Já antes de chegar a casa uma sensação desagradável a dominava. Quando chegou foi recebida pelos vizinhos no lado de fora da porta, onde todos velavam o corpo do seu filho querido.

Juliana como criança que era, ao ver o irmãozinho pegar no sono, foi ao lado de fora jogar amarelinha com as amigas.

O pequeno Marcio acordou sentindo muita falta da mãe e da irmã, não as tendo, colocou uma banqueta, se debruçou na janela que dava para um barranco e se projetou para conhecer a morte ao sopé da encosta.

O mais estranho nesse episódio de suicídio infantil, foi que o garoto antes de se precipitar pela janela, teve o cuidado de abrir a portinha da gaiola e deixar ir livre o passarinho.

Imperiosamente Maria desfaleceu, caindo ao chão. Vergada pelo golpe mais duro da vida, pela segunda vez ela conhecia aquela que é a maior entre as dores que uma mãe pode entrever e dessa vez de uma forma mais trágica ainda, que não poderia ser jamais esquecida.

Entendi assim o porque do semblante dessa mulher esmagada pela vida, pelos fatos combinados que lhe traziam aquele aspecto revelador do desalento humano, da aflição por todo o corpo e gestos, inexprimível por meras palavras.

AHhh! Como ao conhecer a profundidade daquela dor eu me detive em maior compaixão por aquela mulher deflorada pelas circunstâncias infelizes.

Eu, acostumada a visitar os desgraçados para no meu pouco poder lhes ofertar algum prazer, nada possuía de aceitável para dar aquela mulher!

Muitas vezes, na presença de tanta dor, nos sentimos insuficientes para externar qualquer consolo, nossa robustez se esvai e naquele momento com Maria, eu experimentei essa sensação. A própria protagonista buscava forças que não possuía para me contar a sua escuridão, numa angustia penosa que nos surpreendia por uma dor alheia tão grande, a ponto de nos faltar o vigor para ouvir qualquer coisa mais.

Entreguei-me a oração sentida, em lágrimas mudas pedindo a Deus que me rompesse a fraqueza que me abatia e que eu pudesse sair do silêncio para dizer algo aquela alma dilacerada. Recobrando o ânimo por graça divina, falei-lhe sobre o amor de Jesus, como ELe escolhe os que sofrem como os seus prediletos, trazendo a eles a esperança perdida.

Num desabafo compreensível Maria me disse que não podia dividir comigo essa fé, numa dor sentida no fundo da minha alma, ouvi-a dizer que não tinha mais Deus no coração fazia muito tempo. Que a única coisa que acreditava era na dor. Na dor da perda e na dor do remorso, que não a abandonavam um só instante. Ela vivia a rememorar o dia que deixara a casa para trabalhar e o retorno fatídico ao lar. Via o filho morto, deitado no caixãozinho pobre de madeira, imóvel, sem poder se fazer ouvir novamente, sem endereçar-lhe aquele sorriso que a alimentava nos dias de fome, sem os gracejos que eram a vitamina que a sustentara na privação sem fim.

Quando me confessou ser ela um cadáver ambulante, que vagueia por aí sem se aperceber da vida, nada mais a interessava, se encontrava vazia, estéril, esperando somente que a morte a encontrasse.

Oh Deus! ao ouvi-la dizendo daquela dor, como desejei levar-lhe embora alguma parcela dos tantos sofrimentos. Num sacrifício muito grande de minha parte para sair do momento de impasse, falei-lhe sobre a vida após a morte. Falei-lhe que seu filho amado ainda estava vivo. Falei-lhe sobre as belezas do outro mundo, da pátria que nos aguarda... mesmo sabendo que dificilmente aquelas palavras tocariam seu coração em frangalhos.

Sabe, é muito fácil para nós, os que não vivemos na dor gigante, querer pintar um céu ensolarado, quando o outro vive imerso na própria aflição do momento, cercado por um céu cinza e sem brilho algum. Talvez seja até exclusivismo nosso, falar das cores para quem na escuridão vive. Eu assim aprendi que a melhor caridade às vezes é apenas ouvir com interesse e amor.

Foi a maior lição que Maria me legou. Ainda hoje, quando o sofrimento alheio é muito grande, me silencio ouvindo com o coração, me entregando a oração constante, pois sei que em certos casos, como o de Maria, só a intervenção divina pode representar alguma mudança no tormento da dor pungente.

Depois do seu relato verdadeiro, Maria emudeceu novamente e ficamos ali por longos minutos, de mãos dadas, em silêncio absoluto. Eu orando e ela sofrendo.

Continuamos a nos ver esporadicamente naquela praça, embaixo da amendoeira. Às vezes horas em silêncio. Cientes da dor. Outras vezes eu falava a ela sobre as grandezas do espiritismo, sem ao menos saber se ela captava qualquer coisa do que eu dizia, pois nunca me esboçou nenhum interesse sobre o discorrido, nunca me fez qualquer pergunta sobre qualquer dúvida que por acaso tivesse.

Nossos encontros foram com o tempo diminuindo. Quem sustentava a casa era a Juliana, que jovem já trabalhava. Maria virara um zumbi, entregue a um pesar que se traduzia por uma cela difícil de ser aberta as portas, tanto para entrarmos, quanto para fazê-la sair para a liberdade.

Sentia que Maria vivia por milagre. Acho mesmo que o que lhe sustentava em pé era a saudade do seu filho Marcio Daniel, o pequeno que se foi de forma tão trágica, marcando o fim de uma vida ingrata, iniciando para ela o ciclo da vida anestesiada, pois era assim que eu a sentia, sedada, com a perda total de todos os sentidos.

Assim era essa Maria que tomava grande tempo nas minhas preces, quando eu a encomendava ao Amor do Pai, sabendo que um dia Ele a tiraria desse processo tão sofrido ao seu espírito.

Fiquei um tempo sem ver Maria devido a obrigações minhas, mas pelo pensamento a tinha ligada a mim. Liberta dos afazeres busquei de novo a praça para meditar e nos dias que lá estive não a vi.

Já eram passados alguns anos desde que a conheci pela primeira vez, quando sua figura me inspirou estrema compaixão. Agora se resumia a meses o tempo que não nos víamos. Sua ausência de certa forma me preocupava, pois eu não havia tido nenhuma notícia recente sobre ela. Já estava decidida em ir procurá-la, quando, para minha surpresa, foi ela que veio até a mim.

E me disse algo de imediato:

- Acho que agora acredito no seu mundo dos espíritos.

Falou somente isso e ficou calada me olhando. Eu também calei, esperando. Quando resolvi eu romper aquele silêncio, ela exclamou:

- Vi Marcio Daniel!

Surpresa eu lhe falei. – Em sonho Maria?

- Não, não! O vi corado e robusto, vivaz como nunca, ao meu lado, vivo como gente que anda pelo chão, com roupa brilhante, se achegou bem perto de mim, veio para conversar comigo e levar minha tristeza embora.

Radiante antes de lhe dizer qualquer coisa orei ao Bom Deus agradecendo esse presente que ambas recebemos e ponderei. – Mas como foi essa lindeza Maria? Que me dizes minha amiga!

Sentamos e foi quando percebi que seu semblante de alguma forma mudara, o rosto encovado e os olhos fundos ainda estavam lá, mas agora havia um brilho no seu olhar sobrepondo-se ao opaco da dor. Segurando-me as duas mãos com as suas frágeis, me confidenciou:

- Dona Dolores eu estava pronta para terminar minha vida. Planejei tudo. Esperei minha filha levantar-se bem cedo como de costume, banhar-se e comer algo, para depois vir beijar-me a face e sair. Levantei-me. Já estava escondido o venenífero, preparado de véspera numa garrafa de refrigerante. Arrumei a cama e deixei tudo limpo. Banhei-me então, troquei de roupa, me aprontei para morrer, levar para o túmulo toda a minha desgraça.

- Quando estava pronta e decidida para sorver o líquido venenoso, sentada a cabeceira da mesa, vi chegar à direção da porta num halo de luz agradável, o meu filho querido. Que me pediu...

- Mamãe não faça isso! Estou aqui, eu continuo vivo e amando-a do mesmo jeito. A vida é bela mesmo diante das nossas merecidas misérias. Hoje és pobre mamãe, se suportares as dores que a vida te traz, amanhas serás rica e feliz como não há de imaginar.

Fui tomada de espanto, pois em pé a minha frente estava meu filho, sorrindo e falando qual um adulto dentro da minha cabeça, nadando de luz no nosso casebre escuro.

- Mãe – me disse ele continuando – o suicídio é a maior desgraça da vida, pior que todas as dores que já enfrentaste. A senhora não merece isso, nem minha irmã coitada, que ficaria destruída por esse teu ato louco. Veja maêinha que aqui estou eu para evitar que faças uma besteira dessas e para te dizer que eu não quis causar o acidente que me levou para longe de ti. Nunca penses mãezinha que eu quis matar-me. Tudo não passou de um acidente infeliz.

E me contou meu filho tudo o que se passou naquele dia por mim abominado.

- Ao acordar – disse ele – fiquei tranqüilo por ouvir a voz de Juliana brincando do lado de fora da casa. Talvez mais conformado com a tua ausência, tive a aspiração de me confortar brincando com o passarinho querido que me destes, mas ao abrir a portinhola da gaiola, ele alçou vôo brusco mesmo com as asas recém cortadas, indo parar no batente da nossa janela. Vexado talvez para não ver ir o lindo presente, pus então a banqueta para alcançá-lo e me debrucei na janela torta. Acabou mãe que o banco tombou enquanto eu me esticava todo para chegar o bracinho curto até o pássaro. Acho que coloquei muito do corpo para fora, acabei caindo e rolando morro abaixo. Só que não senti dor alguma mamãe. Dormi e acordei num lugar maravilhoso, tão bom que parecia estar sonhando.

- Quero que saiba mãe que eu estarei sempre por perto, que nós, eu e meu irmão, esperamos o dia feliz de te ver chegar aqui, vinda por ordem de Deus e não dessa forma alucinada que a senhora pensa te trará alívio. Essa tristeza no teu peito mãe não te leva a nada e torna tudo mais difícil. Quero que acredite em mim e tenha força!

Suspirando toda a importância daquele momento, Maria continuou. - Fui vendo a luz diminuir depois disso, queria me agarrar a ela sem deixar meu filho partir, mas a saleta foi se apagando até me ver só novamente em casa.

Sei que não estava sonhando, sei que o vi bem nítido na minha frente, mas quando ele se foi duvidei dos meus olhos, mas talvez, já consciente da minha pouca fé, Marcio Daniel me deixou algo.

- O que Maria? O que ele lhe deixou? Interroguei curiosa.

Abrindo a bolsa velha e surrada, ela me mostrou na palma da mão uma pequena pena amarela de periquito – No chão, perto da janela onde ele caiu, estava essa pena de periquito.

Exultante lhe disse, abraçando-a contente – Sim Maria, foi seu filho querido que veio lhe prestar uma visita e te deixou uma prova concreta dessa afeição. Foi ele Maria que veio por encomenda de Deus para evitar uma nova tragédia na sua vida. Isso minha amiga, sintetiza mais perfeitamente tudo o que tenho lhe dito sobre uma vida diferente após a que vivemos.

- Sim agora creio Dolores, creio mesmo com todas as minhas forças – disse isso e eu senti imediatamente aquela nova certeza vindo dela – como haveria eu de duvidar ainda, se eu mesma senti o hálito do meu filho amado. Meu pequenino devolveu-me a vida, restituindo-me um ânimo que nunca mesmo o tive. Sim eu, Maria das dores, posso provar, os mortos vem visitar os vivos, conversar com eles para tirá-los da descrença.

Abracei-me a Maria e pela primeira vez a vi feliz, com um sorriso a emoldurar sua face pálida.

Juliana era só alegria com o novo aspecto íntimo da mãe.

Em pouco tempo Maria recobrou a vontade de viver e sua intenção a partir daí foi mais forte que a face das situações difíceis. Ela se tornou uma mulher cheia de fibra e fé, esclarecida pelos sofrimentos, ensinamentos que a fez um modelo de valor moral até os últimos dias da sua existência no solo, para então, ornada com a veste clara daqueles que não se entregam as duras provas que os experimenta o apodar das derradeiras arestas rumo à mansuetude para conhecer o livramento das dívidas do ontem, conquistou o título de residente do Alto.

Somos ainda confidentes, amigas, irmãs, em estreito laço de amor e trabalho.

Essa história verdadeira que nunca pude ou quis dividir, por ocasião de respeito a fatos que me tolhiam pedindo por não fazê-lo, agora desimpedidos e consentida pela personagem principal, torna-se agora manifesto da experiência do valor moral e firmeza de caráter do espírito singelo de Maria, que diante de tudo que experimentou, nunca traiu a dignidade da sua alma, sofrendo calada, sem se corromper jamais.

Maria Dolores

Mensagem recebida na FEIS em 24/08/2010

Fraternidade Espírita Irmã Scheilla-Salvador-Bahia

http://www.feis-irmascheilla.com.br/

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