terça-feira, 2 de novembro de 2010

Passear no Vale das Sombras e voltar (uma leitura para o dia de finados)


Por Biaggio Talento

Pelas "regras do jogo", quem adentra o reino dos mortos não retorna. Ao longo dos séculos, entretanto, na busca da eternidade, o homem tem criado versões de viagens ao além-vida, episódios chancelados por algumas obras universais. A sociedade de consumo também entrou no jogo, se utilizando dessas viagens para vender produtos. Exemplo recente é a propaganda de uma máquina cafeteira, protagonizada por nada mais nada menos que George Cloney e John Malkovich.


Cloney compra a sua cafeteira, mas, ao sair da loja, recebe pela cabeça um piano que despenca de um andar superior. Ao bater nas portas do céu, reclama de um São Pedro / Malkovich que ainda seria cedo para que chegasse "sua hora". Condoído e vendo que Cloney teve o bom gosto de comprar a referida marca de cafeteira, Malkovich resolve devolver a vida do astro. Contanto que ele deixe no céu a tal máquina. 

Os casos mais lendários de visitas ao submundo situam-se na Antiguidade e na Idade Média e foram eternizados em livros clássicos. Na Odisseia, de Homero, por exemplo, quem dá uma chegadinha no Reino de Hades (o deus da morte da mitologia grega, que se deu mal no sorteio realizado pelos chefes do Olimpo para a repartição do mundo: ficou com o reino das trevas, enquanto Posseidon abiscoitou os mares e Zeus o céu) é Ulisses, herói grego da Guerra de Troia. Para retornar ao seu reino, Ítaca, Ulisses precisava ouvir os conselhos do profeta Tirésias, que habitava o Hades. Cumprida a missão, retornou ao mundo dos vivos sem maiores sequelas, mas com a experiência de ter visto os personagens do além. 

Eneias entra no submundo 

Já o herói troiano Eneias, na obra Eneida, de Virgílio, é outro que transita pelo Hades. Virgílio concebeu seu poema épico baseado nas duas obras máximas de Homero, a Ilíada e a Odisseia, submetendo seu personagem Eneias ao submundo, para procurar a alma do pai, Anquises, que lhe profetiza a fundação de Roma. Também escapa ileso do mundo dos mortos. 

Dois personagens da mitologia grega precisaram manter tratativas com Hades, tentando obter sua clemência, como se fosse possível acordo com a morte. Orfeu não se conformou com a extinção de sua amada, Eurídice. Munido de sua lira, seguiu para o Vale das Sombras, conseguindo com sua música sensibilizar Caronte, o barqueiro sobrenatural responsável pelo transporte das almas pelo rio que dá entrada ao mundo dos mortos. 

Mas havia Cérbero, o monstro com três cabeças de cachorro que vigia a entrada do Hades. Novamente, a lira de Orfeu ajudou, acalmando Cérbero, que permitiu a entrada. O efeito da música em Hades também foi incrível. Sensibilizado pela música e o amor de Orfeu, admitiu restituir a vida de Eurídice com uma condição. Ela o seguiria no retorno ao mundo dos vivos, mas Orfeu não poderia olhar para trás nessa sua jornada. Orfeu resistiu à curiosidade por longo tempo, mas, imaginando que o rei dos mortos havia lhe pregado uma peça, arriscou uma olhadela. Só teve tempo para ver a amada ser tragada para as profundezas. 

Por outro lado, o astuto Sísifo, que enganou a morte duas vezes, recebeu uma pena eterna terrível, foi mandado para o Tártaro, a parte mais baixa do Hades (o equivalente ao inferno católico), onde precisava empurrar uma pedra até o cume de uma montanha. Ao chegar lá, a pedra rolava e ele precisava refazer seu trabalho todo dia. 

A transição entre a mitologia grega e o cristianismo, quando a nova religião começou a tomar corpo e se consolidar como dominante no mundo ocidental, produziu obras sincréticas em que autores da nova ordem procuravam beber no velho sistema para criar um novo. 

Local de purgação 

O purgatório cristão surgiria apenas na Idade Média, da necessidade de se criar uma área intermediária entre o céu e o inferno. Com o purgatório, o sistema de além-vida católico se completaria com uma certa lógica. As almas dos maus vão para o inferno, os bons para o céu e os não totalmente maus e não totalmente bons, onde se encaixa a maioria das pessoas, passariam um tempo no fogo purificador do purgatório, queimando os pecados, antes de seguir para o paraíso. A divina comédia, de Dante, obra do século XIV, descreveria com tintas vivazes os três cenários, novamente através de um viajante que se aventura pelo mundo sobrenatural: o próprio Dante, conduzido pelo seu inspirador, o poeta Virgílio. Dante detalha os vários compartimentos, principalmente do inferno e do purgatório, onde as almas sofredoras pagam suas penas eternas ou temporárias. 

Antes de obras como A divina comédia existem curiosas visões sobre o mundo dos mortos nesse período de transição. Um dos mais interessantes é o apócrifo Evangelho de São Nicodemos, cuja data de escrita estimada é de 150 depois de Cristo. Há uma situação insólita – não poderia ser diferente – quando o autor imagina a chegada de Jesus no reino dos mortos, de onde iria libertar os profetas do Antigo Testamento, para conduzi-los ao céu. 

Prevendo problemas, Satanás procura Hades, chamado no referido evangelho de Inferno, para alertá-lo sobre o personagem que, em vida, foi um adversário poderoso do mau. Quer discutir uma forma de prendê-lo no mundo dos mortos. Hades percebe que seria inútil, manda seus acólitos reforçarem as portas do seu reino tentando evitar a entrada da personificação do bem. Mas Jesus arromba as portas do submundo e arrebata os profetas do local. 

A vida no inferno foi tema do cultuado roteirista de quadrinhos inglês Neil Gaiman. Ele criou, no final da década de 1980, para a revista Sandman, as aventuras de Sonho, onde mistura mitologia grega, catolicismo, literatura clássica. Uma das sequências descreve a situação insólita em que Lúcifer, cansado de administrar o inferno e gerenciar as penas eternas às almas pecadoras, resolve pedir "demissão" do posto, entrega as chaves do inferno a Sonho e parte para outra vida, longe daquele cenário abafado.
Publicado no Caderno + 2 do jornal A Tarde em 15.5.2010

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