quarta-feira, 6 de julho de 2011

DEVEMOS PUBLICAR TUDO QUANTO OS ESPÍRITOS DIZEM?






Fonte:Revista Espírita,novembro de 1859(Allan Kardec)
DEVEMOS PUBLICAR TUDO QUANTO OS ESPÍRITOS DIZEM?
 

Esta pergunta nos foi dirigida por um dos nossos correspondentes.
Respondemo-la da maneira seguinte:
Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?
Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos aqueles que deixaram na Terra o envoltório visível.
Despojando-se, porém, do homem carnal, nem todos se revestiram, por isso mesmo, da túnica dos anjos. Há Espíritos de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade
e de imoralidade – eis o que não devemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, desatentos e brincalhões; falsos sábios,
vãos e orgulhosos, de um saber incompleto; hipócritas, malévolos e, o que nos parecia inexplicável, se de algum modo
não conhecessemos a fisiologia desse mundo, há semsuais, vilões e crapulosos que se arrastam na lama. Ao lado disto, sempre como na Terra, temos seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, de sublimes virtudes. Como, entretanto, o nosso mundo não está na primeira nem na última
posição, embora mais vizinho da última que da primeira, disso resulta que o mundo dos Espíritos abrange seres mais avançados
intelectual e moralmente que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que ainda estão abaixo dos homens mais inferiores.
Desde que esses seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens, de exprimir os seus pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser um reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios.
Serão levianas, triviais, grosseiras, mesmo obscenas, sábias, científicas ou sublimes, conforme seu caráter e sua elevação.
Revelam-se por sua própria linguagem. Daí a necessidade de não aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto, e submetê-lo a controle severo. Com as comunic ações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos
homens, poder-se-ia fazer uma coletânea muito pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é a prova disto. Dela pode-se dizer que uma senhora não a recomendaria como leitura à filha.
Por isto, não a recomendamos aos nossos leitores.
Há pessoas que acham isto engraçado e divertido. Que se deliciem na intimidde, mas o guardem para si próprias. O que é ainda menos concebível é que se vangloriem de obter comunicações malsãs: é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas. Isto não prejulga absolutamente nada em relação
à sua moralidade atual, pois conhecemos pessoas afligidas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se presta o seu caráter. Entretanto, como todos os efeitos, este també m deve ter uma causa. E se não a encontramos na
existência presente, devemos procurá-la num estado anterior.
Se não estiver em nós, estará fora de nós; mas nos achamos nesse estado por algum motivo, quando mais não seja, pela fraqueza de caráter. Conhecida a causa, de nós depende fazê-la cessar.
Ao lado dessas comunicações francamente más, e que chocam qualquer ouvido um pouco delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Se forem divulgadas pelo que valem, serão apenas inconvenientes. Se o forem como
estudo do gênero, com as devidas precauções, os comentários e os corretivos necessários, poderão mesmo ser instrutivas, pois contribuem para se conhecer o mundo espírita em todos os seus graus. Com prudência e habilidade tudo pode
ser dito. O mal é dar como sérias, coisas que chocam o bom senso, a razão e as conveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa.
Para começar, tais publicaçõe s têm o inconveniente de induzir em êrro as pessoas que não estão em condições de
examiná-las e discernir entre o verdadeiro e o falso, principalmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários que não perdem a oportunidade para tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita; porque, diga-se mais uma vez, o mal está em apresentar seriamente coisas que são notórios absurdos. Alguns mesmo podem ver uma profanação
no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente venerandas, e às quais atribuímos uma linguagem indigna. As pessoas que estudaram a fundo a ciência espírita sabem qual a atitude que convém a este respeito. Sabem
que os Espíritos zombeteiros não têm o menor escrúpulo de enfeitar-se com nomes respeitáveis. Mas sabem também que esses Espíritos só abusam daqueles que gostam de se deixar abusar, que não sabem ou não querem esclar ecer as suas astúcias pelos meios de controle já conhecidos. O público,
que ignora isto, vê apenas uma coisa: um absurdo oferecido seriamente à sua admiração. E por isso comenta: Se todos os espíritas são como esse, não desmerecem o epíteto com que foram agraciados? Sem a menos dúvida, tal julgamento
é precipitado. Vós acusais com justa razão os seus autores de leviandade. Deve ser-lhes dito: estudai o assunto e não examineis apenas uma face da medalha. Há, porém, tanta gente que julga a priori, sem se dar ao trabalho de virar a
página, principalmente quando não existe boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto possa dar motivos de censura.
Porque, se a má vontade juntar-se à malevolência, o que é muito comum, ficarão encantadas de achar o que criticar.
Mais tarde, quando o Espiritismo estiver vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas, tais publicações não terão mais influência do que hoje teria um livro de
heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspecção, porque há comunicações que podem prejudicar essencialmente
a causa que querem defender, em escala muito
maior que os grosseiros ataques e as injúrias de certos adversários.
Se algumas fossem feitas com tal objetivo, não teriam melhor êxito. O êrro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundado suficientemente, dando lugar, assim, a uma crítica fundamentada. Esses se queixam
do julgamento temerário de seus antagonistas, sem atentar para o fato de que muitas vezes são eles mesmos que mostram uma falha na couraça. Aliás, a despeito de todas as precauções,
seria presunção suporem-se ao abrigo de toda crítica.
A princípio, porque é impossível contentar a todo o mundo; depois, porque há os que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por seu estado, outros por seu caráter. Riem muito da religião. Não é, pois, de admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se pelo menos estas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação; infelizmente, em geral não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem
pela urbanidade e muito menos pela lógica. Tomemos, então, o melhor partido: pondo de nosso lado a razão e a conveniência, poremos também os trocistas.
Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos, mas há uma não menos importante, pois se refere à própria natureza das comunicações espíritas, e por isso não
a devemos omitir: os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. As comunicações grosseiras e invonvenientes, os simplesmente falsas, absurdas e ridículas,
só podem emanar de Espíritos inferiores: o simples bom senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que se vêem complacentemente escutados: ligam-se
àqueles que admiram as suas tolices e, muitas vêzes, s e apoderam deles e os dominam a ponto de os fascinar e subjulgar.
A importância que, pela publicidade, é dada às suas comunicações, os atrai, excita e encoraja. O único e verdadeiro meio de os afastar é provar-lhes que não nos deixamos enganar.
Rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo aquilo que não for racional, tudo aquilo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de
cujo nome ele se serve. Então, quando vê que perde o tempo, afasta-se.
Julgamos ter respondido suficientemente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar sem exame, ou sem
correção, tudo quanto vem dessa fonte, seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Esta é, pelo menos, a nossa opinião pessoal, que apresentamos à apreciação daqueles que, desinteressados pela questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualqu er
consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de dizer a nossa maneira de penar sobre a ciência que é objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, não pretendendo impor nossas ideias a quem quer que seja, nem
apresentá-las como leis. Os que partilham da nossa maneira de ver é porque cêem, como nós, estar com a verdade. O futuro mostrará quem está errado e quem tem razão.
ALLAN KARDEC
(Revista Espírita, Novembro de 1859).

Lampadário Espírita - Fevereiro - 2011










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