sábado, 17 de março de 2012

Conceitos de Puro e Impuro ao Longo da História



Fonte:www.oconsolador.com.br

CrÃ?nicas e Artigos

Ano 5 - N° 252 - 18 de Março de 2012

MARIA ENY ROSSETINI PAIVA
menylins@terra.com.br
Lins, SP (Brasil)
 

Pureza e impureza - concepções ao longo
da história
 

Comentários inspirados no livro Evolução Espiritual do Homem,
de Herculano Pires


Herculano Pires, o autor espírita cuja obra, infelizmente, é pouco estudada nos dias de hoje, dignifica a Doutrina, um espírito de escol. Seu interessante estudo sobre "Pureza e Impureza na concepção espiritual da vida" em um pequeno livreto, "Evolução Espiritual do Homem" (Editora Paideia), merece análise detalhada.

Começa o autor dizendo que a pureza "nasce das relações sensoriais e portanto epidérmicas do homem com as coisas e os seres". A sensação desagradável e repugnante determina esse conceito. Limpo é o que alivia, dá prazer, produz sensação agradável. O desagradável determina a impureza das coisas. Essa sensação é que desencadeia a ideia de puro e impuro.

A razão, como compreensão dessa sensação primária, surge depois, e tenta modificar os conceitos inicialmente estabelecidos pelos sentidos. Certa vez, um médico me disse que se um índio passar mal com um alimento, mesmo que lhe dê prazer comê-lo, esse alimento será considerado impuro para ele, que não deverá comê-lo mais. É o instinto de preservação. Sem conhecer sequer o termo alergia, instintivamente, e mesmo por experiências anteriores, os "pajés" sabem que o alimento poderá, se ingerido, tornar-se danoso ou fatal. A experiência e a racionalidade alteram o conceito sensorial de alimento puro e impuro.

O problema maior aparece quando o critério religioso tenta alterar essa base natural e segura. As exigências do conceito de sagrado, e os preceitos de santificação, estabelecidos ainda nas fases tribais da evolução humana, criam o absurdo, o doentio e o bizarro.

Nas fases iniciais da evolução humana, muitos conceitos surgem simplesmente de determinações de "pajés, feiticeiros, pitonisas, ou outros tipos de liderança "mediúnica", ou baseados em poderes anímicos que resolvem estabelecer, por instinto, "revelação" ou visão doentia de mentes "não muito equilibradas", o que é puro e o que não o é. Estabelecem essas lideranças o puro e o impuro, rituais de santificação, que nem sempre têm por objetivo auxiliar a vida e disciplinar a utilização das faculdades humanas. 

Na fase das grandes civilizações centralizadas no poder imperial, real, ou sacerdotal, como no Egito, em Roma e na Antiguidade, os conceitos de puro e impuro estão ligados a rituais de purificação estabelecidos por sacerdotes com objetivos também de manter o poder e aumentar a riqueza da casta sacerdotal que dominava o estado, como no Egito e na Índia. Até hoje, na Índia, impuro é o pária. Se um pária esbarrar em você, você tem que solicitar a presença de um sacerdote da casta bramânica para limpar toda a família com rituais de purificação. É claro que eles custam caro, como não? Só esses sacerdotes podem fazer o ritual certinho, com as palavras milenares e bem colocadas, senão, não valerão...

Na época de Jesus havia muitos rituais de purificação. Para purificar imolavam-se pombos, carneiros, garrotes, que eram queimados para que as "narinas de Jeová se satisfizessem com o cheiro de carne". Claro, esse comércio, feito com dinheiro do Templo, rendia muito, e ainda parte das carnes dos sacrifícios ficava para quem os faziam, conforme a Lei, para alimentar os "donos da religião" e à sua família. Afinal, a carne sempre foi muito cara e restrita às classes mais ricas.

Em Roma, os Espíritos malignos tinham que ser afastados por procissões, dos ancestrais, cujas efígies eram carregadas em andores, como nas procissões católicas. Assim, Herculano nos explica. É fácil concluir que a impureza nos contaminava a todos, pelas crenças difundidas pelos que nos deveriam esclarecer. Então eram exigidos ritos de purificação, para nos enganar e explorar.

É interessante verificar que nessa fase, como na fase tribal, o desequilíbrio, o desejo de poder, o orgulho dos que "podiam conversar com os deuses e Espíritos", estabeleceram que a relação sexual era impura. Mas os deuses, claro que obedecendo os rituais dos feiticeiros e depois sacerdotes, podiam torná-la pura.

Certa vez perguntei a um amigo meu, psicólogo social, com todos os títulos universitários, por que os religiosos implicam tanto com um ato tão bonito e natural como o ato sexual. Ele sorriu matreiramente e falou com simplicidade: "É que o sexo é uma grande fonte de poder, entre os seres humanos. O prazer compartilhado gera poder entre os parceiros. Quem domina o seu sexo, domina você. Os líderes religiosos perceberam isso muito cedo, na história do homem. Daí estabelecerem a impureza do ato sexual, a não ser quando consagrado por eles".

Com certeza, tinha razão meu amigo. Os religiosos ao longo da história têm feito do sexo um problema. A virgindade era pura e sagrada. Tão-somente virgens mães podiam, quando fecundadas por um deus, ter um filho especial, um semideus ou uma criatura superior. Tal era a lenda que cercava Pitágoras. As virgens podiam gerar messias e profetas. As mulheres normais, que se consorciavam com homens comuns, não. Em Roma, o culto ao Deus Apis, exigia a castração dos homens para serem sacerdotes. E pasmem: havia os que se castravam publicamente, em cerimÃ?nias de sangue, onde o boi Apis, sacrificado em um tablado, recebia a castração de seus novos sacerdotes feita sob o sangue dele, em baixo desse mesmo tablado. As vestais do Templo de Vesta deveriam permanecer virgens até os 30 anos, e se quebrassem essa obrigação eram enterradas vivas.

Por outro lado, havia os cultos fálicos. As casas romanas tinham em seus pórticos uma representação do órgão sexual masculino, símbolo de fertilidade e virilidade que traria prosperidade para a família. "A prostituição sagrada existia oficiada nos templos de Vênus, dignificando as prostitutas", esclarece-nos Herculano, e nos fala de Afrodite cultuada desde os sumérios, com atos sexuais sagrados em seus altares. Havia ainda as bacanais e saturnais das quais nos restam ainda hoje as festas do carnaval. As bacanais eram festas gloriosas com as quais os homens homenageavam Baco, e as orgias nas festas agradavam todo o Olimpo.

Conviviam, assim, as proibições e castrações sexuais, os mitos da virgindade, com as orgias e atos sexuais sagrados, mas, notemos bem, todos sob o domínio dos sacerdotes, que então utilizavam os mitos e rituais sobre as pulsões naturais, sempre com objetivo de manter e expandir o seu poder e riqueza. Não apenas no Ocidente, nas no Oriente há lendas dos deuses e mitos que resumem os mesmos preconceitos e crenças. O próprio Buda nasce de uma flor de Lótus, certamente porque nem mesmo uma virgem poderia ser digna de parir o Iluminado.  

Era natural, assim, que essa incoerência e essa confusão se imiscuíssem no Cristianismo nascente, em que podemos encontrar todas essas tendências de castração do sexo e de liberalização nas diferentes heresias perseguidas e às vezes dizimadas com violência pela Igreja nos primeiros séculos. As mesmas crenças e mitos romanos e egípcios são adaptados ao Evangelho, como nos explica Herculano Pires em seu magnífico livro "O Espírito e o Tempo".  Mas foram as tendências de horror à matéria, proibição do prazer e exigência de castração, não de fato, mas nos votos de castidade, que venceram as batalhas travadas ao longo dos séculos e se impuseram no cristianismo da Igreja e também nos diversos evangelismos. O evangelismo dignifica o casamento, não aceita o voto de castidade, a não ser antes do casamento.  Sempre se exige, porém, as bênçãos dos homens de Deus, e ainda se faz da religião uma profissão que tenta as "ambições secundárias" e faz surgir uma chusma de "novos profetas", como nos fala o Codificador ao nos explicar a dominação exercida pelas religiões. Cap. I de A Gênese, item 8.




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