sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

NOÇÕES BÁSICAS DE ESPIRITISMO

Curso Básico de Espiritismo

Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal

1. Origem e natureza dos espíritos

«Podemos dizer que os espíritos são os seres inteligentes da criação. Eles povoam o Universo, fora do mundo material». Esta é a definição dada pelos espíritos em resposta à questão n.º 76 de «O Livro dos Espíritos», seguindo-se breve comentário de Allan Kardec: «A palavra espírito é aqui empregada para designar os seres extracorpóreos e não mais o elemento inteligente universal».

«Os espíritos são individualizações do princípio inteligente, como os corpos são individualizações do princípio material; a época e a maneira dessa formação é que desconhecemos».

Podemos deduzir, dos ensinamentos acima, que a natureza do espírito não é a mesma da matéria. A posição da doutrina espírita é bem definida quanto à origem do espírito e da matéria. No capítulo 11, n.º 6, de «A Génese», ele desenvolve o seguinte raciocínio:

«O princípio espiritual teria a sua fonte no elemento cósmico universal? Não seria apenas uma transformação, um modo de existência deste elemento, como a luz, a electricidade, o calor, etc.?».

Se assim fosse, o princípio espiritual passaria pelas vicissitudes da matéria; extinguir-se-ia, pela desagregação, como o princípio vital; o ser inteligente só teria uma existência momentânea, como o corpo, e com a morte voltaria ao nada, ou - o que viria a dar no mesmo - ao Todo Universal. Seria, numa palavra, a sanção das doutrinas materialistas».

Sobre o que não paira a menor dúvida é acerca da união do princípio espiritual à matéria, e, em estágios mais avançados, já o espírito individualizado, que se serve da matéria como elemento indispensável ao seu progresso... «É assim que tudo serve, tudo se encadeia na natureza, desde o átomo primitivo até ao arcanjo, pois mesmo este último começou pelo átomo. Admirável lei de harmonia, de que o vosso espírito limitado ainda não pode abarcar o conjunto».

Nem todos os espíritos tiveram o seu início aqui na Terra. Todavia, o nosso planeta começou a oferecer a possibilidade de surgimento da vida quando as grandes convulsões telúricas se atenuaram, dando condições para que o princípio espiritual, em obediência aos ditames divinos, desse origem ao surgimento das formas mais rudimentares de vida. Daí para a frente, ao longo de milénios, a imensa cadeia de seres que existem, ou que existiram, estabeleceu-se, servindo cada espécie de filtro de transformismo para o espírito, na sua marcha ascensional no rumo da perfeição.

Pode parecer contraditório que, estudando o mundo dos espíritos, entremos em considerações sobre a vida na Terra. Todavia, ao tratarmos da origem e natureza dos espíritos, não poderíamos fazê-lo de outro modo, já que, tanto nas obras básicas, como noutras, de autores encarnados e desencarnados de reconhecido valor, e que demonstram profundo respeito pela doutrina, é enfatizada a marcha do espírito pelos escalões inferiores da natureza. Transcrevemos as questões n.º 607 e 607-a) de «O Livro dos Espíritos», para darmos uma ideia dessa posição. «Ficou dito que a alma do homem, na sua origem, se assemelha ao estado de infância da vida corpórea, que a sua inteligência apenas desponta, e que ela ensaia para a vida. Onde cumpre o espírito essa primeira fase? «Numa série de existências que precederam o período a que chamais de humanidade».

« - Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferiores da criação?

- Não dissemos que tudo se encadeia na natureza, e tende à unidade? É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora, se individualiza pouco a pouco, e ensaia para a vida, como dissemos. É, de certa maneira, um trabalho preparatório, como o da germinação, a seguir ao qual o princípio inteligente sofre uma transformação, e se torna espírito. É então que começa para ele o período de humanidade, e com este a consciência do seu futuro, a distinção do bem e do mal e a responsabilidade dos seus actos. Como depois do período da infância vem o da adolescência, depois a juventude, e por fim a idade madura. Nada há, de resto, nessa origem, que deva humilhar o homem. Os grandes génios sentem-se humilhados por terem sido fetos informes no ventre materno? Se alguma coisa deve humilhá-los, é a sua inferioridade perante Deus, e a sua impotência para sondar a profundidade dos seus desígnios e a sabedoria das leis que regulam a harmonia do Universo. Reconhecei a grandiosidade de Deus nessa admirável harmonia que faz a solidariedade de todas as coisas da Natureza. Crer que Deus pudesse ter feito qualquer coisa sem objectivo, e criar seres inteligentes sem futuro, seria blasfemar contra a sua bondade, que se estende sobre todas as criaturas».

Será que meu tio voltou como um cão? Ensaio sobre Metempsicose

Publicado por Coiow em 24/9/2006 (38 leituras)

Após uma palestra sobre "Karma: destino do espírito, sofrimento e Justiça Divina segundo o Espiritismo" que proferira no grupo espírita que freqüento e na qual abordara, em lapsos de segundos, a questão da reencarnação em um corpo animal (metempsicose), uma jovem me procurou buscando mais esclarecimentos. Relatava que um seu tio que houvera extinguido a vida de diversos cães, sem aparente razão, talvez por mero prazer, desencarnara. No entanto, semanas depois, sua cadelinha dera cria e um dos cãezinhos desaparecera e fora encontrado na sua vizinha e prima, filha daquele tio. No entanto, sua prima, que também não gostava desses animaizinhos, se afeiçoara ao cachorrinho fujão. A jovem que me interpelava identificara estreitos vínculos de afeto nutridos entre o filhote fugido e sua prima que o abrigara, e por crer na doutrina da reencarnação pensou que talvez esse animalzinho fosse o pai de sua prima que voltara... "Será que meu tio voltou como esse cãozinho?" – foi a pergunta que ouvi após breve relato.

A pergunta deveras me espantou, não podia crer eu que houvera passado de forma tão descuidada sobre o tema que imaginara não serem necessários maiores esclarecimentos. É nesse propósito que me vi sem onde me apoiar para embasar minha argumentação sobre a metempsicose e resolvi pesquisar mais detidamente sobre esse tema.

Na minha apresentação, embasada na matéria "Kardec nunca escreveu sobre carma", de Paulo Henrique de Figueiredo (Universo Espírita, nº 29, ano 2, 2006), fizera uma retrospectiva sobre o tema de karma e reencarnação no Hinduísmo, no Budismo e na Teosofia até o Espiritismo, passando pelas possíveis conseqüências da concepção do carma absorvido de outras doutrinas. Na ocasião adotei a definição de carma como atos cometidos nas vidas passadas tendo como conseqüência o sofrimento da vida atual e futura, com possibilidade de uma libertação dos renascimentos (samsara), algo parecido como a obrigatória colheita de tudo que plantamos. Como breve parêntesis, permitam-me divagar algumas linhas sobre a idéia que como abordei o tema do carma nessa apresentação.

Carma e samsara são conceitos desenvolvidos na Índia do séc. VI a.C. como contestação da dominação ariana que impunha rígido sistema de castas. Pode ter conseqüências equivocadas que levam a uma não prática da caridade para não "atrapalhar" o carma alheio, certo ascetismo levando ao afastamento da família e alheiamento da vida social buscando livrar-se do ciclo dos renascimentos, auto-imolação e mortificação dos corpos, inação buscando não praticar o mal mas se omitindo na prática do bem e isenção das responsabilidades. Kardec não mencionou esse termo, mas reiteradamente nos lembra da máxima crista de "a cada um segundo as suas obras", contrapondo livre-arbítrio e determinismo, nos lembrando a todo o momento da responsabilidade de cada um e de que "a quem muito foi dado, muito será cobrado".

Passando pela lembrança das parábolas da ovelha desgarrada do aprisco à qual o pastor vai buscar ao encontro, pois nenhuma lhe seria esquecida, do filho pródigo recebido com festa pelo pai e dos trabalhadores da última hora que recebem o mesmo salário que os que chegaram na primeira hora do dia, chegamos a lembrar que a causa do sofrimento está nas imperfeições do espírito e vida após vida repetimos padrões de comportamento da nossa personalidade espiritual. Não nos basta "pagar" simplesmente os erros do passado, necessário se faz resgatarmos os débitos cobrados por nossa consciência e educarmos a nós mesmos.

Como perguntado pela psicoterapeuta Elaine de Lucca, também nos perguntamos: "Nosso sofrimento decorre de que imperfeição?", "Por que escolhemos essa dificuldade no momento?", "Qual aprendizado ela deve nos trazer?". O ser escolhe livremente seus caminhos e o único destino determinante é que vai superar suas imperfeições e explorar suas capacidades inatas. Estamos destinados à Felicidade e à Perfeição Espiritual. Conclui a exposição apresentando a Reencarnação como metodologia pedagógica para a Educação do Espírito e que esta não possui limites precisamente traçados pois que a materialidade do envoltório físico diminui à proporção que o espírito se purifica, como nos lembra Kardec em "Céu e Inferno". Encerrei com uma frase da trilogia "Às margens do Eufrates", de Josepho e Dolores Barcelar: "A Justiça Divina não necessita de advogados em defesa daqueles que fogem das Leis do Amor e da Harmonia. Nos tribunais do Infinito, o réu é seu próprio e mais severo juiz", como convite à reflexão de nossos pensamentos, sentimentos, palavras e ações.

Mas e a relação com a metempsicose?

Primeiramente, vamos pelos aspectos históricos. A doutrina da metempsicose sustenta que a transmigração da alma humana pode se dar para corpos animais ou espécies vegetais, como forma de castigo à alma ainda recalcitrante no mal, além de considerar a encarnação em corpos humanos também. Assim, um espírito que anima hoje o corpo humano, poderia voltar ao mundo animando corpos de animais ou vegetais, segundo seus "compromissos cármicos".

Nas tribos anismistas africanas, após a morte, a alma poderia se unir a objetos e animais que se tornariam protetores da família dos descendentes. No Egito Antigo já era professada pelos iniciados nos grandes mistérios, principalmente Hermes Trimegistus, filósofo, sacedote e legislador egípcio que teria vivido cerca de 2.300 anos antes da Era Cristã, como grafado nas paredes e colunas dos templos egípcios em caracteres hieroglíficos. Segundo R. Medde ("La métempsychose") a alma poderia juntar-se às incontáveis estrelas (versão mais antiga) ou fundir-se na alma universal que habita o Sol (versão panteísta mais tardia). Por vezes, a alma do pecador poderia habitar o corpo de um porco para levar uma vida miserável sobre a terra.

A metempsicose é também um princípio fundamental de outras tantas religiões orientais como Hinduísmo, Budismo e Jainismo. Há quem diga que a doutrina da metempsicose não apareceu com Upanishads por volta de 700 a.C, registrada no Vedanta, mas com a dominação ariana no norte da Índia no alvorecer do segundo milênio antes de Cristo. Por não ter um conhecimento mais aprofundado dos livros védicos prefiro me omitir nesse sentido.

Para o grande orador e escritor francês, contemporâneo de Kardec, Léon Denis, como expresso no livro "Depois da Morte", no cap. 2 (A Índia), a metempsicose, ou o renascimento das almas culpadas em corpos de animais, faz parte do rol do Bramanismo exotérico, culto e ensino vulgar, repletos de ficções que cativam o povo, auxiliando a conduzi-lo pelas vias da submissão, como talvez tenha sido o politeísmo egípcio; diferentemente do conhecimento esotérico, o ensino secreto que fornece sobre a alma e seus destinos, e sobre a causa Universal, as mais puras e elevadas reflexões. Então, a metempsicose seria um "bem de consumo" para o povo, pois, como em muitas civilizações, o conhecimento mais profundo estava restrito a poucos iniciados. Aliás, essa é também o que afirmou o professor e orador Divaldo Pereira Franco numa palestra recentemente proferida sobre a Reencarnação.

Bebendo nas fontes das culturas egípcias e indianas, o filósofo e matemático grego Pitágoras levou para sua terra essa crença, bem expressa no mito de Orfeu. Na Grécia Antiga a concepção da metempsicose considerava que após a morte a alma passa uma estadia no inferno (Hades) para um tempo de provações e depois se une por própria iniciativa aos seres que se lhe assemelham formando um todo universal, perdendo sua característica individual, essência do panteísmo. As almas menos esclarecidas retornariam para a vida corpórea para seu aprendizado.

A origem dessa crença da metempsicose remonta, segundo José Marcelo G. Coelho, ao registro mental de exilados de Capela que passaram a habitar corpos muito mais rústicos que o que animavam anteriormente. Transcrevo como ele se expressa em texto de 22/07/2000: "Viajemos até uma constelação conhecida pelos astrônomos terrenos por Cocheiro, da qual faz parte uma estrela de nome Capela, um sol extremamente brilhante, em torno do qual, dentre outros, gira um planeta situado a aproximadamente 42 anos-luz. Havia, naquele orbe, determinada parcela da população agindo em total dissonância com o padrão evolutivo dos demais habitantes, razão pela qual, na medida em que desencarnavam, eram conduzidos para mundos inferiores, consonantes com seu nível moral; um destes planetas escolhidos foi a Terra. Aqui chegando, os exilados formaram as chamadas raças adâmicas, que originaram, inclusive, os povos do Egito e da Índia. Ocorreu que, diferentemente dos corpos de compleição refinada, típicos de seu ditoso planeta, tiveram que adotar, entre nós, veículos carnais ainda grosseiros, de aspecto pré-histórico, peculiar aos primeiros hominídeos. Daí, por conclusão, a sensação de terem vindo para habitar corpos animais, fato este que ficou gravado em seus inconscientes como uma punição divina, e que deu azo à teoria equivocada da metempsicose, que hoje deve ser compreendida como uma variante imprecisa da reencarnação – um dos princípios fundamentais do Espiritismo."

Emmanuel, na obra "A Caminho do Luz", de psicografia do médium mineiro Chico Xavier também toca no tema da metempsicose, escrevendo sobre o Egito:

O grande povo dos faraós guardava a reminiscência do seu doloroso degredo na face obscura do mundo terreno. E tanto lhe doía semelhante humilhação, que, na lembrança do pretérito, criou a teoria da metempsicose, acreditando que a alma de um homem podia regressar ao corpo de um irracional, por determinação punitiva dos deuses. A metempsicose era o fruto da sua amarga impressão, a respeito do exílio penoso que lhe fora infligido no ambiente terrestre. Inventou-se, desse modo, uma série de rituais e cerimônias para solenizar o regresso dos seus irmãos à pátria espiritual. Os mistérios de Ísis e Osíris mais não eram que símbolos das forças espirituais que presidem aos fenômenos da morte.

Assim parece bem verossímil a hipótese de que talvez a crença na metempsicose sejam as impressões que ficaram gravadas nos arquivos psíquicos de espíritos que vieram degredados para a Terra, como os capelinos.

Léon Denis ainda nos esclarece:

Nos animais domésticos as diferenças de caráter são apreciáveis, e até os de certas espécies parecem mais adiantados que outros. Alguns possuem qualidades que se aproximam sensivelmente das da Humanidade, sendo suscetíveis de afeição e devotamento. Como a matéria é incapaz de amar e sentir, forçoso é que se admita neles a existência de uma alma em estado embrionário. Nada há aliás maior, mais justo, mais conforme a lei do progresso, do que essa ascensão das almas operando-se por escalas inumeráveis, em cujo percurso elas próprias se formam: pouco a pouco se libertam dos instintos grosseiros e despedaçam a sua couraça de egoísmo para penetrarem nos domínios da razão, do amor, liberdade. É soberanamente justo que a mesma aprendizagem chegue a todos, e que nenhum ser alcance o estado superior sem ter adquirido aptidões novas.

... o ser se forma a si próprio pelo desenvolvimento gradual das forças que estão consigo. Inconsciente ao princípio, sua vida vai ganhando inteligência e torna-se consciente logo que chega à condição humana e entra na posse de si mesmo. Aí a sua liberdade ainda é limitada pela ação das leis naturais que intervêm para assegurar a sua conservação. O livre-arbítrio e o fatalismo assim se equilibram e moderam-se um pelo outro. A liberdade e, por conseguinte, a responsabilidade são sempre proporcionais ao adiantamento do ser.

Eis a única solução racional do problema. Através da sucessão dos tempos, na superfície de milhares de mundos, as nossas existências desenrolam-se, passam, renovam-se, e, em cada uma delas, desaparece um pouco do mal que está em nós; as nossas almas fortificam-se, depuram-se, penetram mais intimamente nos caminhos sagrados, até que, livres das encarnações dolorosas, tenham adquirido, por seus méritos, acesso aos círculos superiores, onde eternamente irradiarão em beleza, sabedoria, poder e amor!

Em "O que é o Espiritismo" (cap. 23, Terceiro Diálogo – O Padre), Kardec lembra que a "transmigração pelos corpos dos animais não era considerada como condição inerente à natureza da alma humana, mas como punição temporária; é assim que se admitia que as almas dos assassinos iam habitar os corpos dos animais ferozes, para neles receberem castigos; as dos impudicos, os porcos e javalis; as dos inconstantes e estouvados, os das aves; as dos preguiçosos e ignorantes, os dos animais aquáticos. Depois de alguns milhares de anos, mais ou menos, conforme a culpabilidade, a alma, saindo dessa espécie de prisão, voltava à humanidade." Parece-me mais que Kardec está a nos dizer que a crença na metempsicose se aproxima do folclore e do mito.

Mas fiquei imaginando o que nos levaria a conceber e aceitar ainda hoje a crença de que após a morte poderíamos voltar e animar um corpo animal ou vegetal? Acho que poderíamos trazer em nós a impressão de irmãos emigrados de Capela, como a hipótese acima aventada. Talvez também por em parte reconhecermos hoje os animais algo mais como nossos irmãos, seres que dispõem de lapsos de inteligência e consciência, ainda fragmentária e baseada no instinto e não no livre-arbítrio, é verdade, mas compartilhada conosco, e não termos esses animais somente como seres a nos servir. Ou quem sabe por guardarmos em nós gravadas no nosso inconsciente os estágios por que passamos nos reinos primários da Natureza como princípio espiritual em evolução ou ainda ser apenas um dogma de que ainda não abrimos mão mas que não pode encarar a razão de frente.

De qualquer forma parece que essa crença fez parte do nosso arcabouço anímico e psíquico, talvez, quem sabe, até por atender nossos impulsos e demandas por cultos e ritos exteriores e necessidades sociais, como pode ter sido o caso da adoração dos gatos e zooantropomorfização de deuses no Egito dominado por ratos.

Agora vamos nos embasar um pouco mais no na codificação kardequiana e outras obras. As questões 611 a 613 de O Livro dos Espíritos (LE) trata sobre a metempsicose no capítulo XI (Dos três reinos). Resolvi por bem, novamente, transcrever, para evitar de me equivocar.

Metempsicose

611. A comunhão de origem dos seres vivos no princípio inteligente não é a consagração da doutrina da metempsicose?

"Duas coisas podem ter a mesma origem e não se assemelharem em nada mais tarde. Quem reconheceria a árvore, suas folhas, suas flores e seus frutos no germe informe que se contém na semente de onde saíram? No momento em que o princípio inteligente atinge o grau necessário para ser Espírito e entra no período de humanidade, não tem mais relação com o seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente. No homem, somente existe do animal o corpo, as paixões que nascem da influência do corpo e o instinto de conservação inerente à matéria. Não se pode dizer, portanto, que tal homem é a encarnação do Espírito de tal animal, e por conseguinte a metempsicose, tal como a entendem, não é exata."


612. O Espírito que animou o corpo de um homem poderia encarnar-se num animal?

"Isto seria retrogradar, e o Espírito não retrograda. O rio não remonta a nascente."


613. Por mais errônea que seja a idéia ligada à metempsicose, não seria ela o resultado do sentimento intuitivo das diferentes existências do homem?

"Encontramos esse sentimento intuitivo nessa crença como em muitas outras; mas, como a maior parte dessas idéias intuitivas, o homem a desnaturou."


Após as respostas do Espírito de Verdade, seguem as observações de Allan Kardec:

A metempsicose seria verdadeira se por ela se entendesse a progressão da alma de um estado inferior para um superior, realizando os desenvolvimentos que transformariam a sua natureza, mas é falsa no sentido de transmigração direta do animal para o homem e vice­versa, o que implicaria a idéia de uma retrogradação ou de fusão. Ora, não podendo realizar-se essa fusão entre seres corporais de duas espécies, temos nisso um indício de que se encontram em graus não assimiláveis e que o mesmo deve acontecer com os espíritos que os animam. Se o mesmo Espírito pudesse animá-los alternativamente, disso resultaria uma identidade de natureza que se traduziria na possibilidade de reprodução material. A reencarnação ensinada pelos Espíritos se funda, pelo contrário, sobre a marcha ascendente da Natureza e sobre a progressão do homem na sua própria espécie, o que não diminui em nada a sua dignidade. O que o rebaixa é o mau uso que faz das faculdades que Deus lhe deu para o seu adiantamento. Como quer que seja, a antiguidade e a universalidade da doutrina da metempsicose, e o número de homens eminentes que a professaram, provam que o princípio da reencarnação tem suas raízes na própria Natureza; esses são, portanto, argumentos antes a seu favor do que contrários.

O ponto de partida do Espírito é uma dessas questões que se ligam ao princípio das coisas e estão nos segredos de Deus. Não é dado ao homem conhecê-las de maneira absoluta, e ele só pode fazer, a seu respeito, meras suposições, construir sistemas mais ou menos prováveis. Os próprios Espíritos estão longe de tudo conhecer, e sobre o que não conhecem podem ter também opiniões pessoais mais ou menos sensatas.

É assim que nem todos pensam da mesma maneira a respeito das relações existentes entre o homem e os animais. Segundo alguns, o Espírito não chega ao período humano senão depois de ter sido elaborado e individualizado nos diferentes graus dos seres inferiores da Criação. Segundo outros, o Espírito do homem teria sempre pertencido à raça humana, sem passar pela fieira animal. O primeiro desses sistemas tem a vantagem de dar uma finalidade ao futuro dos animais, que constituiriam assim os primeiros anéis da cadeia dos seres pensantes; o segundo é mais conforme à dignidade do homem e pode resumir-se da maneira seguinte:

As diferentes espécies de animais não procedem intelectualmente umas das outras, por via de progressão; assim, o Espírito da ostra não se torna sucessivamente do peixe, da ave, do quadrúpede e do quadrúmano; cada espécie é um tipo absoluto, física e moralmente, e cada um dos seus indivíduos tira da fonte universal a quantidade de princípio inteligente que lhe é necessária, segundo a perfeição dos seus órgãos e a tarefa que deve desempenhar nos fenômenos da Natureza, devolvendo-a à massa após a morte. Aqueles dos mundos mais adiantados que o nosso são igualmente constituídos de raças distintas, apropriadas às necessidades desses mundos e ao grau de adiantamento dos homens de que são auxiliares, mas não procedem absolutamente dos terrenos, espiritualmente falando. Com o homem, já não se dá o mesmo.

Do ponto de vista físico, o homem constitui evidentemente um anel da cadeia dos seres vivos; mas, do ponto de vista moral, há solução de continuidade entre o homem e o animal. O homem possui, como sua particularidade, a alma ou Espírito, centelha divina que lhe dá o senso moral e um alcance intelectual que os animais não possuem; é o ser principal, preexistente e sobrevivente ao corpo, conservando a sua individualidade. Qual é a origem do Espírito? Onde está o seu ponto de partida? Forma-se ele do princípio inteligente individualizado? Isso é um mistério que seria inútil procurar penetrar e sobre o qual, como dissemos, só podemos construir sistemas.

O que é constante e ressalta ao mesmo tempo do raciocínio e da experiência é a sobrevivência do Espírito, a conservação de sua individualidade após à morte, sua faculdade de progredir, seu estado feliz ou infeliz, proporcional ao seu adiantamento na senda do bem, e todas as verdades morais que são a conseqüência desse princípio. Quanto às relações misteriosas existentes entre o homem e os animais, isso, repetimos, está nos segredos de Deus, como muitas outras coisas cujo conhecimento atual nada importa para o nosso adiantamento, e sobre as quais seria inútil nos determos


Outra feita, não me lembro onde li, que "o anjo está para o homem, assim como o homem está para o animal". A distância de que os animais se nos separam é tão grande ou até maior da que nos separamos dos seres de compleição angelical. Considerando a escada da evolução, pelos degraus que já percorremos, podemos inferir que assim como se nos parece mistério as possibilidades e capacidades de espíritos de escol que galgaram muito mais degraus que nós e esperamos um dia ascender até eles, aos nossos irmãozinhos animais seríamos seres bastante evoluídos, estágio que um dia também atingirão seguramente. Léon Denis, em "Depois da Morte" (cap. 11, Pluralidade das Existências) afirma: "A alma elabora-se no seio dos organismos rudimentares. No animal está apenas em estado embrionário; no homem, adquire o conhecimento, e não mais pode retrogradar."

Ainda deixando a palavra para o mestre lionês, "a pluralidade das existências, segundo o Espiritismo, difere essencialmente da metempsicose, em não admitir àquele a encarnação da alma humana nos corpos de animais, mesmo como castigo. Os Espíritos ensinam que a alma não retrograda, mas progride sempre. Suas diferentes existências corpóreas se cumprem na humanidade, sendo cada uma um passo que a alma dá na senda do progresso intelectual e moral; o que é coisa muito diversa da metempsicose. Não podendo adquirir um desenvolvimento completo em uma só existência, muitas vezes abreviada por causas acidentais, Deus lhe permite continuar, em nova encarnação, o que ela não pôde acabar em outra, ou recomeçar o que fez errado. A expiação na vida corporal consiste nas tribulações que nela sofremos." A mim parece bem claro.

Porém, importante lembrar, como apresentado pelo ilustre codificador, que a passagem pelos estágios da evolução ("do átomo ao arcanjo") não é abrupta, mas gradual, e as nossas conquistas morais e intelectuais não as perdemos, pois o espírito não retrograda (LE, questões 118 e 805), ainda que as nossas faculdades intelectuais possam ser limitadas (LE, questão 180). Dominando nossos instintos e paixões malsãs, pela conquista da consciência e do livre-arbítrio e o burilamento do nosso espírito caminhamos passo-a-passo rumo ao amplexo fraterno do Criador do Universo.

Dentre as melhores definições que já vi sobre o Espiritismo, destaco essa: "O Espiritismo é uma doutrina filosófica com bases científicas e conseqüências morais". No nosso dia-a-dia diversas cogitações íntimas se nos aparecem. Deixemos, sem preconceitos que essas nossas dúvidas aflorem e possam refletidas na nossa mente e nosso coração. Assim, nos perguntarmos porque não voltaríamos em corpos animais é natural, mas as luzes que o Espiritismo nos traz mostra que a evolução é como uma espiral ascendente, como uma mola a nos impulsionar.

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