domingo, 11 de dezembro de 2011

''VIVEMOS EM UMA SOCIEDADE CADA VEZ MENOS CRISTÃ''-JÁDER SAMPAIO(MG)

Complementando a opinião abaixo,acho que nós espíritas temos que agregar as ações notoriamente solidárias nas creches,asilos,instituições em geral a evangelização espírita em nome do Evangelho Segundo o Espiritismo.Ouço muita gente falar que nos lugares pobres as pessoas não tem ainda dimensão de entender o Espiritismo.Acho isso um grande erros pois a histórias espiritual de cada um e seus conhecimentos não tem nenhuma relação com o status social atual,a não ser pela Lei do Retorno.Generalizar é um grande erro.Já doei itens para uma instituição e me falaram isso,que não podia falar de espiritismo devido ao "nível evolutivo" das pessoas.O Espiritismo é um caminho de aprendizado mas não o único,mas com certeza dá ferramentas sociais,cientificas e filosóficas para uma melhor compreensão da historia de nossa passagem na Terra neste momento.

Manoel Trajano
Fonte:www.oconsolador.com.br

Entrevista Espanhol Inglês    
Ano 5 - N° 239 - 11 de Dezembro de 2011
GUARACI LIMA SILVEIRA
glimasil@hotmail.com
Juiz de Fora, MG (Brasil)

 
Jáder Sampaio: 

"Vivemos em uma sociedade cada vez menos cristã" 

O conhecido estudioso e escritor espírita analisa o atual estágio do movimento espírita brasileiro e diz que a atuação espírita no campo social demarca uma contribuição concreta de melhora
do mundo em que vivemos

 

Jáder Sampaio (foto) nasceu na cidade de Belo Horizonte-MG, tendo já residido em Montes Claros-MG e São Paulo. Oriundo de lar espírita, assumiu o Espiritismo ainda na adolescência. Atua na Associação Espírita Célia Xavier (AECX) de Belo Horizonte, sendo ainda membro da Liga de Pesquisadores do Espiritismo (LIHPE), que é uma organização em rede. Mantém o blog Espiritismo Comentado. É professor-colaborador do programa de pós-graduação em psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais, coordenador da Câmara de Assessoramento do Programa de Capacitação de Recursos Humanos da

 

Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais e Psicólogo do trabalho. Autor de dezenas de livros espíritas e obras relacionadas à profissão que exerce, traduziu recentemente o livro "Diálogo com os Céticos", de Alfred Russel Wallace, e organizou com Jeferson Betarello o livro "O Espiritismo visto pelas áreas de conhecimento atuais". Jader conversou conosco sobre vários assuntos que envolvem o Espiritismo e o movimento espírita, oferecendo-nos sua experiência. 


Como vê o avanço dos estudos espíritas dentro das universidades brasileiras nos dias atuais?

Com a ampliação acentuada dos cursos de pós-graduação e a atual política de publicações nacionais e internacionais das universidades e agências de fomento à pesquisa, o tema Espiritismo vem crescendo acentuadamente. Tiago Paz Albuquerque (2011) mostrou-nos o registro de 171 teses de doutorado e dissertações de mestrado nos anos entre 1989 e 2009, com uma tendência de ampliação. Os temas estudados mais comuns, associados ao Espiritismo, são: saúde, instituições espíritas, personalidades espíritas e religiões em relação ao universo literário. Ainda citando Albuquerque (2011), as universidades onde mais se defenderam teses e dissertações relacionadas ao Espiritismo são: a UNICAMP, a PUC-SP, a USP, a UFRJ, a Universidade Federal de Juiz de Fora e a Universidade Estadual Paulista. Os pesquisadores não são necessariamente espíritas ou simpatizantes. Eles perceberam a necessidade de estudar o Espiritismo ou o movimento espírita ao aprofundarem-se em suas respectivas áreas de conhecimento, e identificaram ausência de estudos ou lacunas do conhecimento oficial. 

O jovem acadêmico e o Evangelho de Jesus. Pode discorrer algo sobre isto?

Vivemos em uma sociedade cada vez menos cristã e menos católica, no Brasil, em especial nos segmentos da população que tiveram mais acesso ao ensino superior. Há meio século, grande parte da população brasileira, seja nas capitais ou no interior, tinha acesso às catequeses, às igrejas, aos cultos e à evangelização espírita. O cristianismo estava mais presente na mídia que atingia o grande público, e era mais discutido no Brasil. Eu cursei um curso superior na área de ciências humanas (psicologia), na década de 80, no qual praticamente não tive a oportunidade de estudar filósofos cristãos, embora tenha estudado filósofos naturalistas, céticos, existencialistas e, quando muito, humanistas. Falar em cristianismo era ser malvisto pelos colegas e mestres. Perguntei uma vez sobre Paulo de Tarso a um padre, que também era psicólogo social de renome, e ele acho u que eu o estivesse ridicularizando. Da mesma forma que considerar uma pessoa como positivista era uma depreciação, usava-se e usa-se o jargão "judeu-cristão" para depreciar qualquer coisa que aparentasse ser conservadora. Apesar de nossas raízes culturais serem cristãs, africanas e indígenas, nas ciências humanas ainda se acha mais relevante estudar os mitos gregos, por sua relação com a filosofia e pela influência do pensamento europeu e norte-americano. O que vivenciei como professor foi uma pequena abertura para o estudo da experiência cristã, nos trabalhos do Prof. Miguel Mahfoud (UFMG), que adotou uma perspectiva fenomenológica. Ele não se vinculou a nenhuma religião específica em seu trabalho de entender o "senso religioso" e já orientou dissertações sobre a vivência de voluntários espíritas. O cristianismo é uma grande mensagem, descaracterizada com o passar do tempo e das instituições cristãs. Jesus, por exemplo, reconhecia mulhe r es, escravos, servos e gente do povo como pessoas de direito, em uma época na qual estes segmentos eram vistos como pouco mais que objetos de uso e comércio. Na minha opinião é necessária uma reflexão mais substancial das universidades sobre a filosofia cristã, mas os preconceitos são de difícil mudança. Grande parte de nossos jovens universitários deixam-se levar pelo utilitarismo moderno, pelo consumismo, pelo individualismo e pelo sensualismo, que consideram ser um avanço das liberdades individuais. O cristianismo, nas universidades que conheço, forma uma espécie de cultura underground, como se nunca tivesse saído das catacumbas e ainda vivêssemos na Roma antiga. 

Em sua opinião, o que o centro espírita representa para a comunidade?

As sociedades espíritas são inicialmente vistas como o lugar em que se reúnem os espíritas, onde se pode assistir a uma palestra pública, tomar passes, procurar por orientações ou mesmo por uma ajuda material. Bezerra de Menezes e Chico Xavier foram percebidos pela sociedade brasileira como "homens-santos" e adentraram assim o imaginário nacional com essa aura, que oculta sua contribuição intelectual e sua condição humana. Para as comunidades economicamente vulneráveis, que não são poucas em nosso país, o centro espírita é uma alternativa de sobrevivência, de educação e até mesmo de lazer. Fiquei conhecendo uma jovem senhora que na infância almoçava aos domingos no Centro Espírita mantido por Wagner Gomes da Paixão no interior de Minas. Vi uma jovem mãe pedir a inscrição dos filhos na evangelização infantil, há três décadas, em busca de algu ma forma de educação moral, visto que era indiferente se levava os filhos ao centro espírita, ao culto evangélico ou à igreja católica, espaços em que transitava todas as semanas. O censo de 2000 mostra que os que se identificam como espíritas, ou espíritas kardecistas, são em sua grande maioria pessoas de classe média ou alta, com grau de escolarização médio de 9,6 anos (o maior dos segmentos religiosos). 

Qual o ponto de relevância das atividades sociais amplamente exercidas nos centros espíritas?

Kardec preocupava-se com a sociedade em que vivia, e não apenas com as comunicações espirituais. Ele ensinava voluntariamente à juventude francesa que tinha dificuldades de acesso à educação pública e gratuita. Ele publicou muitas orientações espirituais que recomendavam a generosidade e a solidariedade, como a famosa mensagem do Espírito Cáritas. Ele também fez um projeto para o movimento espírita no qual se preocupava com a realização de ações sociais, ao lado dos estudos sobre a doutrina espírita. As atividades sociais, na minha opinião, são muito importantes, porque demarcam uma contribuição concreta de melhora do mundo em que vivemos. A questão que se impõe hoje é a revisão do que fazemos. Mais e mais o estado brasileiro tem assumido a realização de políticas de bem-estar social. Como exemplo, trinta anos atrás, quando construímos uma creche no modelo casulo, a educação fundamental não era atribuição do município. Hoje, o município estabeleceu uma parceria com a sociedade espírita que frequento e custeia grande parte da despesa com a creche. A distribuição de cestas básicas e o serviço de sopões era atividade imperiosa na Campinas de Dona Vandir, nos anos 60, pelo intenso fluxo migratório e a total falta de infraestrutura das comunidades que se formavam. Não tenho medo de dizer que ela salvou muitas vidas e incluiu muitas pessoas enquanto outros apenas cobravam a construção de uma política pelo governo. Hoje temos novos problemas nas grandes e médias cidades brasileiras. O tráfico de drogas recruta jovens nas comunidades acenando com a esperança de um futuro melhor. Um grande contingente de moradores de rua e uma geração de crianças que nasceram e vivem nas ruas. A violência doméstica, incluindo a sexual, afeta crianças e adolescentes. O meio ambiente deteriorado como efeito do crescim ento urbano e econ�¿??mico. A exclusão de um grande número de pessoas do mercado de trabalho e a falta de acesso a cargos que exigem qualificação. A gravidez na adolescência e a mudança dos papéis no núcleo familiar. São novos e maiores desafios esperando uma ação concreta do movimento espírita, que precisa reconstruir suas ações de promoção social. 

Os centros de pesquisas universitários deveriam estreitar os limites entre a fé e a razão?

Os centros de pesquisa universitários devem estudar seus temas sem assumir inconscientemente o materialismo e o ceticismo como pano de fundo dos seus estudos. Se a fé traz contribuições para a saúde das pessoas, por exemplo, deve-se investigar, constatar e conhecer melhor seus efeitos. Se a espiritualidade tem um impacto nas relações humanas, por que não estudar o tema? O que são os grupos religiosos e como se estruturam em nossa sociedade? Estas não são questões menores, porque constituem a experiência humana. O ser humano não é apenas um organismo biológico. 

Dentro dos centros espíritas deveria haver programas de cursos dentro de áreas organizacionais, visando a uma melhor adequação dos trabalhadores para mais amplo atendimento às suas propostas e àqueles que buscam as casas espíritas?

Não tenho dúvida disso, mas como é algo novo, as sociedades espíritas precisam de mais sinergia entre si e com o movimento federativo, para praticamente desenvolver as ações de treinamento e desenvolvimento de seu pessoal. Veja o nosso caso. Temos um coordenador administrativo na creche, imposto pela prefeitura. Como aperfeiçoar este profissional? Ou delegamos à prefeitura o seu desenvolvimento ou nos associamos com outras creches espíritas para qualificar todos os coordenadores administrativos. Hoje existe a possibilidade de parcerias com o poder público e com a iniciativa privada. Como estabelecer esta parceria? Como obter as certificações e usufruir dos direitos de imunidade e isenção? Como captar recursos sem abrir mão das nossas convicções e valores? Isto é algo que não pode ficar sem reflexão, sem produção de conhecimento e troca de experiências. Nos sa imprensa espírita, salvo raras exceções, não apresenta alternativas. Recentemente o Centro de Cultura, Documentação e Pesquisa do Espiritismo, em São Paulo, ofereceu cursos sobre gestão de casas espíritas e palestras sobre planejamento estratégico, o que foi uma iniciativa muito importante e merece ser multiplicada e consolidada pelo movimento. 

Sabemos que você recentemente lançou no mercado editorial a tradução do livro "Diálogo com os Céticos", de Alfred Russel Wallace. Qual a contribuição daquele naturalista para a história do Espiritismo?

Wallace era um intelectual corajoso e não temia nadar contra a corrente de sua época, pagando um preço alto por sua audácia. Ele fez pesquisas com médiuns e não se omitiu a afirmar a realidade deles. Após publicar "O Aspecto Científico do Sobrenatural" ele percebeu que a comunidade científica inglesa se recusava a estudar os fen�¿??menos espirituais por puro preconceito e por espelhar seu espírito de época. Ele, então, identificou os filósofos e cientistas céticos, naturalistas e materialistas e exibiu publicamente as contradições e equívocos de seu pensamento, que era passivamente aceito pela inteligentsia dos países ocidentais. Avaliamos que era muito importante publicar este livro em língua portuguesa, porque ele não é "mais do mesmo", e traz uma reflexão epistemológica capaz de intrigar quem faz pesquisa nos dias de hoje.  

Embora sendo contemporâneos, Alfred Russel Wallace não teve contato com Kardec. Uma vez que postulavam princípios semelhantes por que, em sua opinião, não estreitaram relações em suas pesquisas?

Havia o abismo da língua e um afastamento entre o espiritualismo moderno e o Espiritismo franco-latino. Wallace falava e publicava em inglês, a obra de Kardec estava em francês. A maioria das fontes de Wallace estava em língua inglesa, pelo que me lembro. Há também a distância cultural entre "a ilha e o continente", que ainda tem reflexos nos dias de hoje em outras áreas do conhecimento. A aproximação entre os espíritas latino-europeus e os espiritualistas anglo-saxões começou a dar-se com os congressos do final do século XIX e teve protagonistas como Conan Doyle, Léon Denis e outros. Há também um pequeno descompasso no tempo. Kardec iniciou seus estudos em 1853 e desencarnou em 1869 e Wallace iniciou suas pesquisas sobre os fen�¿??menos mediúnicos em 1862, publicando seu primeiro livro em 1866 e seu segundo livro em 1871. 

Como concilia suas amplas atividades profissionais com as atividades no movimento espírita do qual participa?

Sempre estudei o Espiritismo e participei do movimento espírita, desde a adolescência. Os sábados são meus dias de dedicação ao Espiritismo, e minha família também adotou esta agenda. Acho que o mais difícil tem sido resistir ao "canto da sereia" da universidade. Hoje estou aposentado e posso dedicar um pouco mais de tempo aos projetos espíritas, mas não posso descuidar da minha família, dos amigos e dos laços de trabalho que ainda me ligam ao meio acadêmico. 

Vemos que a cada dia mais os universitários e membros dos corpos docentes das universidades aproximam-se dos estudos espíritas. Como os centros espíritas devem se preparar para este novo tempo?

Lembrando dos nossos antepassados franceses, ingleses e italianos, que se dispunham a estudar e publicar o que estava acontecendo nas universidades. Como hoje o volume de conhecimento é muito maior, precisamos ser mais humildes e ouvir mais as associações de especialistas que estão se formando (médicos espíritas, psicólogos espíritas, advogados espíritas, pedagogos espíritas etc.). Estas associações precisam desenvolver estudos com metodologia acadêmica, que envolvem revisão de literatura ampla e atualizada, proposta de problemas de pesquisa, metodologia rigorosa e publicação não apenas no meio espírita ou através de livros, mas nos periódicos nacionais e internacionais indexados. 

Suas palavras finais.

Estamos vivendo uma época muito rica de transformações. Desejo de coração que as lideranças espíritas mais lúcidas possam tomar decisões sábias, mantendo o que deve ser conservado e mudando o que deve evoluir com os tempos, minimizando a influência das vaidades pessoais. 




 

 

   


 

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O Consolador
 Revista Semanal de Divulgação Espírita
 





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