segunda-feira, 20 de abril de 2015

ANTI-SEMITISMO(Texto antigo,reprise comemorativa dos 11 anos do Grupo IRMAOS DE LUZ)

ANTI-SEMITISMO

 

FILME FOMENTA ANTI-SEMITISMO ?

 

 

Antes mesmo de seu lançamento nas salas de cinema de todo o mundo, o filme "A Paixão " produzido e dirigido pelo ator Mel Gibson, gera debates e críticas pela violência de suas cenas.E, principalmente, segundo comentaristas internacionais judeus e não judeus, por devolver ao povo de Israel a responsabilidade pela morte de Jesus.Ou seja, culpava-o, novamente, pelo crime de deicídio, acusação que lhe fora retirada há quase trinta anos pelo papa João XXIII, durante o Concílio Vaticano II, em 1965. Desde então, mudou a tônica e o perfil do relacionamento cristão-judaico. Será o filme de Mel Gibson capaz de reverter este processo, levando, outra vez, ao clima de mágoas e ressentimentos?

 

Para falar sobre este assunto, Morashá conversou com o Rabino David Weitman.

 

 Morashá:

 

Aparentemente, a narração da "Paixão de Jesus" foi, no passado, um assunto bastante delicado para os judeus. Como vê esta questão?

 

Rabino David Weitman :

 

Efetivamente, ao se fazer uma retrospectiva, não há dúvida de que, durante séculos, principalmente na Europa, o período da dramatização da Paixão de Jesus sempre se constitui um momento difícil para as comunidades judaicas. Os judeus sabiam que, nessa época, o ódio das massas contra eles era mais insuflado, levando a perseguições, massacres e matanças de inocentes, os chamados pogroms. Por isso, muitas pessoas se trancavam em suas casas, já antevendo a onda de violência que poderia se ABATER sobre a população judaica em dia nefasto e difícil. O responsável pela transformação gradativa dos sentimentos do mundo cristão em relação aos judeus foi o Papa João XXIII, pioneiro que, em 1965, durante o Concílio Vaticano II, definiu novas regras sobre o tema da Paixão e as incluiu no documento denominado Nostra Aetate, que renegava claramente o conceito secular de que os judeus eram os responsáveis pela morte de Jesus. Segundo as determinações desta declaração conciliar (Encíclica), não se poderia mais imputar a culpa aos judeus pelos acontecimentos do passado. Ele retirou, sem sombra de dúvida, a acusação de deicídio e proibiu a disseminação de manifestações anti-semitas durante as preces e liturgias, em todo o mundo. O Papa também lamentou os ressentimentos e as mágoas do passado, ressaltando que os judeus não poderiam mais ser condenados ou amaldiçoados.

 

Morashá :

 

Será que a abordagem apresentada no filme de Mel Gibson é historicamente correta?

 

Rabino David Weitman:

 

O filme é simplesmente uma aberração, ou melhor, uma adulteração da história na medida que não narra os fatos corretamente e, principalmente, por contradizer as determinações do Concílio Vaticano II, responsabilizando novamente e exclusivamente o povo judeu pela morte de Jesus. Infelizmente, não se pode, neste momento, deixar de lembrar que o próprio pai de Gibson negou recentemente a extensão do Holocausto, rejeitando a verdade histórica de que este tenha feito tantas vítimas. Ou seja, ele apresentou a "sua" versão do Holocausto, tentando mudar o rumo da história e minimizando suas conseqüências principalmente no referente à tragédia que se abateu sobre os judeus, na Europa, durante a Segunda Guerra Mundial. Em sua apresentação da Paixão, o ator e diretor também segue a mesma trajetória, tentando mudar os fatos e buscando denegrir o povo judeu. Apresenta como o vilão da história, quando é um fato histórico incontestável que o poder vigente na região na época, era o romano. A área que incluía Jerusalém e a Galiléia, na então Israel, fazia parte do Império Romano; portanto, tudo o que acontecia ali era de responsabilidade total de Roma.

 

Morashá:

 

Qual era a relação entre a elite judaica e os representantes de Roma, naquele período?

 

Rabino David Weitman:

 

É preciso sempre ter bem claro que, naquela época, o povo de Israel era súdito do Império Romano. Como tal era oprimido e sujeito a um poder supremo representado pelo governador - indicado por Roma - e pelo exército romano. Não havia outro poder político e eram estas forças - governador e exército - que tomavam todas as decisões. É necessário lembrar, ainda, que, a exemplo de Jesus, centenas de milhares de judeus que viviam sob dominação romana também morreram crucificados e que comunidades inteiras da Galiléia foram exterminadas pelos soldados durante o governo do imperador Adriano. Dizem nossos sábios que os cavalos cavalgavam nos povoados judaicos em meio a um mar de sangue, tantas as vítimas inocentes das tropas de Roma. Como poderia, então, esta suposta elite judaica decidir ou impedir a morte de Jesus se não era capaz sequer de impedir a matança constante de tantas outras pessoas? Infelizmente, o sofrimento e o martírio de milhões de judeus, entre os quais rabi Akiva e outros nove sábios, durante este período, é sistematicamente omitido da história. Por estas e outras omissões, o filme de Gibson não pode ser considerado correto do ponto de vista histórico. Ao apresentar o governador Pôncio Pilatos e outros representantes do poder romano como pessoas boas e piedosas, e os judeus como indivíduos vingativos, cruéis e maléficos, o produtor e diretor adultera deliberadamente a história. Todos sabem o quanto os judeus têm compaixão e são piedosos, bem diferentes das crueldades romanas.

 

Morashá:

 

Mas, afinal, Gibson não tem o direito de produzir um filme de acordo com os Evangelhos?

 

Rabino David Weitman:

 

É importante ressaltar que este filme não segue a narração da Paixão baseada nos Evangelhos. É sabido que Gibson usou outras fontes, autores que têm uma visão própria dos fatos apresentados. A discrepância em relação aos Evangelhos é tamanha que houve até um bispo em Detroit (EUA) que afirmou que a dramatização feita no filme não seguia os Evangelhos, mas sim era "segundo Mel Gibson". É uma versão própria. Também é importante lembrar, como a imprensa norte-americana vem repetindo há meses, que o filme é uma abordagem sádica com a duração de duas horas. A Conferência Nacional dos Bispos Católicos dos Estados Unidos emitiu tempos atrás um guia pastoral para os interessados em produzir uma dramatização sobre a Paixão de Jesus. Entre as dezenas de regras apresentadas estão a proibição da caricaturização de personagens e do uso da acusação de deicídio contra os judeus. O filme de Gibson viola todas as regras definidas pelos religiosos norte-americanos e desafia as determinações do Concílio Vaticano II. É claro que um ator, diretor ou produtor tem o direito de fazer um filme com a sua visão. Mas é também universalmente reconhecida a idéia de que o produtor, justamente pela sua influência junto ao público, deve ser responsável social e moralmente. Ele deve estar consciente de que o cinema é um instrumento de comunicação de massa e que os filmes têm um impacto imediato e podem deixar marcas profundas no público que os assiste. Um ator como Gibson jamais poderia ter adulterado desta forma os fatos históricos, utilizando o seu filme para inflamar as massas, reabrindo feridas que estavam começando a cicatrizar.Várias sugestões de mudanças no roteiro foram feitas a Gibson por teólogos católicos e protestantes, para que obra se aproximasse mais da verdade, mas ele se recusou a acatá-las.

 

Morashá:

 

Quais podem ser as conseqüências deste filme?

 

Rabino David Weitman :

 

Este filme pode causar um retrocesso na história das relações entre a Igreja e o Judaísmo. Pena que realmente, talvez por razões puramente financeiras, Gibson fez questão de produzir este filme de acordo com a sua visão pessoal sobre o tema. Não há dúvida de que este filme fomentará ódio, intolerância e anti-semitismo, pois é difícil assistir duas horas de atos sádicos e sofrimento e não sair das salas de exibição revoltado com o vilão da história que, segundo Gibson, é o povo judeu. Por isso, ele foi totalmente irresponsável, principalmente se levarmos em consideração que a humanidade, diante do terrorismo que está matando milhares de inocentes, busca formas de cultivar a harmonia e a paz entre os povos. Não se pode, também, esquecer que exibir um filme como este em um momento em que a Europa vive um período de recrudescimento do anti-semitismo, além de um ato irresponsável é, acima de tudo, repulsivo.

 

( Revista Morashá - Edição 44 - março de 2004 )

 

 


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Manoel Trajano
Eng.Especialista em Segurança do Trabalho e Gás Natural
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