terça-feira, 13 de abril de 2010

NOTÍCIAS DE OUTRAS ÁREAS DO CONHECIMENTO...

UMBANDA DE VERDADE

Durante aproxidamente três anos, fui médium de uma pequeno Terreiro de Umbanda chamado "Casa de Caridade Pai Domingos da Cruz", comandado pelo falecido (e saudoso) Sr. João dos Santos, homem grande (não somente na estatura, mas principalmente em caráter), negro, de origem humilde, extremamente trabalhador.

Quando o conheci contava com avançados 68 anos, salvo engano, e veio falecer, de causas naturais, com mais de oitenta.

Na pequena Casa de Pai Domingo, não havia "pais" ou "mães-de-santo".

O próprio Sr. João dos Santos arrepiava e se incomodava a cada vez que se referiam à ele como tal. Era carinhosamente chamado por todos de "Tio João" e, não raramente, deixava a gíra do dia sob a responsabilidade de algum médium, fosse ele novato ou com muito tempo dentro da Umbanda.

Certa vez o questionei sobre este tipo de conduta.

Afinal, em minha cabeça, seria temerário que um médium jovem, sem experiência comandasse a gíra de um Terreiro onde, não raro, contava com 80 - 90 pessoas na assistência, sem contar os médiuns e cambonos.

A reposta que obtive do velho Tio João foi a seguinte: "meu filho, o médium é novo, mas a Entidade é velha. Somos meros instrumentos nas mãos dos Guias. A verdadeira sabedoria e conhecimento é deles e não nossa."

O ritual era enxuto, sem atabaques, matanças e roupas espalhafatosas, dentre elas o que era banido guias imensas e vistosos cocares. No muito cada médium usava uma camiseta e calca brancas, de qualquer tecido (lembro que a calça de Tio João era feita de pano saco alvejado) uma guia com a cor do Orixá, no máximo um cachimbo, um charuto, um cigarro para uso das Entidades. Não haviam cobranças de nenhum tipo, sendo que o Terreiro vivia das mensalidades dos médiuns e doações feitas pelos frequentadores. Esta últimas mais confiáveis que as primeiras, como é normal em qualquer Terreiro.

Haviam poucas festas, homenagens singelas às Crianças, Caboclos, Pretos-Velhos e Exus, em datas tradicionais, dentro do sincretismo católico. Contudo a que mais enchia os olhos de Tio João era a "Festa dos Meninos", como ele gostava de ser referir a comemoração em louvor a Cosme e Damião. Este era o dia que aquele "Negro Velho" tornava-se novamente criança e chegava às lágrimas ao ver a Casa cheia.

Nesta simplicidade, a Casa de Caridade Pai Domingos da Cruz funcionou por longos 60 anos e, até que o seu fundador e orientador foi chamado novamente aos Jardins de Aruanda.

Acredito que foi esta simplicidade que perdi e tenho pagado o preço por isto.

Não que me arrependa de ter seguido a Raíz de Guiné, mas com certeza nunca mais encontrei pessoas realmente confiáveis como aquelas em que divida a benção de estar na Casa de Pai Domingos da Cruz.

Oxalá os "umbandistas" de hoje, em especial aqueles que pululam em listas de discussões e comunidades virtuais, assim como os "líderes" que hoje, como pavões do "santo rebolado", vivem a bater no peitos sobre seus feitos que, na verdade, enchem seus bolsos e emburrecem a massa de fiéis.

A sua benção, Pai Domingos da Cruz...

A sua benção, Tio João...

Com certeza, um dia vamos nos rever nos Campos de Aruanda.
 
 
 

Segunda-feira, Abril 12, 2010

FECHANDO O CICLO

Fiquei um pouco mais de quatro meses sem escrever neste blog e, com certeza, alguns integrantes da "umbanda do santo rebolado" devem ter ficado exultantes, acreditando que os muitos despachos, trabalhos de morte e manobras outras que de nada servem (exceto sujar as ruas) alcançaram resultados.

Ledo engano.

Neste tempo que deixei de atualizar este blog serviu para que eu meditasse mais sobre a minha vida, trabalhasse meus anseios, dúvidas e, por que não, a minha própria espiritualidade e religiosidade. Continue "de olho" no assim chamado "Movimento Umbandista" e cheguei a algumas conclusões, dentre elas é que cada povo tem os políticos e os sacerdotes que merecem.

Os brasileiros, de forma geral, querem um líder, alguém que lhes fale o que, como, onde fazer isto ou aquilo. O caso é que o brasileiro é pregiçoso e não quer perder tempo pensando por si mesmo, analisando situações, tirando conclusões, buscando o próprio caminho para alcançar o Sagrado. Preferem esta visão sacerdotal, onde elegem um "iluminado" que tem uma linha direta com Deus, os Orixás, anjos e demônios para que seja o intermediário.

Isto acontece em todas as religiões, sem exceção.

O avanço das seitas evangélicas no Brasil se deve a esta predisposição do brasileiro em ser um "pau mandado". Como na Igreja Católica na idade média, onde os fiéis eram desencorajados à ler a Bíblia (aliás, nem podiam, já que eram, em sua maioria, analfabetos e os textos eram em latim...), que dependiam do padre para interpretar a "palavra de Deus", dar absolvição e vender indulgências, o povo evangélico de hoje está na mesma situação: deixam nas mãos do pastor tratar seus problemas com o divino.

Na Umbanda a coisa não está diferente, já que as facções continuam se degladiando, disputando seguidores (e, claro, seus bolsos) todos os dias, usando e abusando dos recursos midiáticos. Alguns "mestres", com destacado gosto para churrascos e caipirinhas, continuam por ai falando do que não sabem, escrevendo "abobrinhas" com ares professorais, vivendo às custas da religião, enquanto apontam o dedo acusador de quem faz (ou tenta fazer) o mesmo. Tal atitude, claro, é compreensível, já que ninguém gosta de concorrência.

Não podemos esquecer dos pseudos filhos-de-santo, aqueles que se acham os paladinos da justiça, que se dizem dispostos a perder alguma dinheiro para provar isto ou aquilo e, piores dentre os piores, que têm esposas que se acham a "última azeitona do martini". Existem também os sanguessugas de conhecimento, que não se comprometem com nada, apenas querem aprender o máximo possível para depois virar as costas e ainda sair falando mal daquele que o ensinou.

Enfim, o tal "movimento umbandista" continua a mesma latrina de sempre e eu, particularmente, resolvi usar meu tempo para projetos e atividades mais relevantes e produtivas. Não faz muito tempo, completei 40 anos e não tenho mais tempo para ficar revirando o lixo, perdendo noites de sono, sendo alvo de calúnias, difamações, injúrias.

Cansei do tal "movimento umbandista", de seus "mestres" e dos capachos que chamam de discípulos, da falsidade e do descomprometimento. Não deixei de ser Umbandista, mas nada mais quero com estes que se dizem umbandistas.

Como disse Fernando Pessoa: "tudo qu chega, chega sempre por alguma razão".

Meu tempo chegou... mais este ciclo de vida se fechou... estou alçando novos vôos.
"Tudo o que chega,
chega sempre por alguma razão"
 
(Fernando Pessoa)
 
 

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