quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Mensagem psicografada - 09/11/2010





 

..."Mas, correndo com pés alados emparelhados aos meus de criança, vi as pegadas da adolescência alcançar-me nos jardins da juventude."

TAGORE

 
 

 

Pórtico do Amanhã

 

 

Abri as janelas da minha alma para que o vento das lembranças pudesse soprar trazendo a saudade das recordações.

Voltei aos pés faceiros da infância, quando a vida não tinha tempo para me aprisionar nas cadeias das horas.

O bafejar da juventude era o mesmo vigor que enaltecia a agitação de menino.

As copas das árvores mais altas eram facilmente conquistadas em minha escalada na busca dos frutos doces temporão.

Apostava corrida com o irritado vendaval. Nem os soluços da tempestade, nem o tamborilar da chuva levantando a terra e exalando os torrões perfumados da argila podiam tocar a agudeza do meu corpo esquio de menino.

As pedras que serviam de murada represando as águas do rio, prisioneiras dos meus folguedos, eram as torres Antonias das minhas conquistas juvenis.

Desconhecia a doença, a lentidão, o cansaço. O meu peito arfava pela exuberância incontida da vida, trovejando e gritando a alacridade de todo instante.

Confiava tanto na vivacidade da infância que estava certo que ela nunca chegaria ao fim.

Mas, correndo com pés alados emparelhados aos meus de criança, vi as pegadas da adolescência alcançar-me nos jardins da juventude.

E o corpo em transformação sem igual, abandonou seu casulo, borboleteando novos interesses aos olhos do menino de outrora.

De súbito passei a perceber as formas tão belas da escultura humana, distinguir que foram mãos Hábeis e Supremas que haviam talhado a mulher para ser a divindade inspiradora da poesia, esculpindo para minha primeira visão a obra de arte da Vênus feminina.

Enamorei-me e perdi-me nos encantos da mulher! Reconheci na voz amante a melodia inebriante, embaracei-me nos cachos negros dos cabelos acetinados e deitei nos colos alvos das paixões.

Descobri os segredos da noite, dancei com as franjas do luar e desvendei os escaninhos prateados pela lua, o manto aveludado da escuridão me cobriu de muitos desejos e as estrelas do firmamento luziam meus sonhos. Acordei repentinamente e já era adulto!

A azafama da cidade que crescia, agigantava as tantas necessidades do homem tolo, me seqüestrando o tempo, me asfixiando as horas.

No meu rosto já emoldurado pelas imposições da sociedade trêfega, vi aos poucos ser apagado o sorriso e tomar comando a tristeza das preocupações diárias.

A cada dia descia mais fundo no calabouço das próprias ilusões do homem.

Sedado passei a buscar a gloria do reconhecimento, busquei o brilhantismo das profissões importantes, busquei o saber contemplativo dos livros, busquei o brilho do fugaz do ouro e com ele perdi-me. Tendo-o em abundância em minhas mãos, ia tornando-me mais e mais empobrecido.

Vi o véu ir descendo sobre a minha visão nevoada pelo agitar da existência. Fui assim, vivendo sem perceber que morria a cada sopro de futilidade que abraçava com meus dedos retesados.

Os corcéis do tempo galoparam e quando divisei as fronteiras do amanhã, já estava de pé ante a senilidade.

O branco da neve me tomou os cabelos...

Sofregamente a vida curvou-me o corpo antes cheio de vigor...

As cordas partidas do meu coração já não plangiam os acordes da juventude e me vi deserdado pela sonata da força vital.

Só então percebi que tinha roubado de mim mesmo a alegria. Na minha ânsia de viver uma vida dependurada nas fantasias, procurando por quimeras em toda parte, esqueci-me da criança que morava dentro de mim, que queria apenas sair para brincar e ser feliz.

Os poemas tão belos da natureza já não enchem os olhos do homem senil.

Debruça o coração do homem na janela da seriedade e apega-se palidamente as conquistas sem importância à felicidade.

Oh! Mocidade, por que desviaste teu curso das minhas margens? Por que não fui eu nadar nas tuas águas que deságuam no oceano das realizações verdadeiras? Por que cultivei eu as árvores grandes e estéreis da ciência material, esquecendo-me dos arbustos enraizados no mundo espiritual?

Oh! Divino Amigo, ainda há tempo para me resgatar dessa condição de envelhecida consciência que assumi?

Devolve se possível for, aquela minha irrefreável certeza, contida na alegria da juventude, independente da idade dos anos.

E deixa-me, Oh! Dadivoso, um dia, olhar no espelho da própria realidade e poder divisar na semelhança da tua imagem, um reflexo do teu Amor na Terra, na ventura que a mocidade carregou, e só a velhice dos bons anos pode devolver. 

 

Tagore

Mensagem recebida na reunião mediúnica da

Fraternidade Espírita Irmã Scheilla em 9/11/2010 - FEIS



Enviado por Maria Rosa
Salvador-Bahia

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